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A borracha azul!

Muita polémica se tem gerado na sociedade portuguesa nos últimos tempos, à volta de monumentos que recordam e glorificam o nosso passado colonial, desde os brasões florais da Praça do Império ao Padrão dos Descobrimentos. Uma fação da esquerda advoga o apagamento desses símbolos, visto que dizem representar ideais imperialistas e colonialistas. No entanto eu não poderia discordar mais, esses monumentos representam a nossa história. História essa, que devemos compreender e aprender a lidar com ela, com os pontos positivos e negativos, mas olhando para ela enquadrando-a na época em que esta ocorreu. Só assim poderemos realmente vivê-la aos olhos de quem a praticou.

É pouco inteligente negar que a nossa história colonial não teve pontos negativos, especialmente nas décadas de 60 e 70 do século passado. Mas não será de questionar, o contributo positivo dessa história para o mundo e para a nossa evolução como povo e país não ultrapassará esses acontecimentos dos quais não devemos ter orgulho? Claro que devemos colocar esta questão e por a nossa perspetiva. Os descobrimentos e a colonização portuguesa foram a primeira abertura a um mundo global e plural, numa época em que a Europa era fustigada pela fome, a peste e a guerra fomos nós que partimos à descoberta de novas terras e povos, com os quais nos relacionamos de forma mais ou menos pacifica, mas com os quais de uma forma ou outra acabamos por criar laços. Não houve colonização mais próxima do que a portuguesa, exemplo disso são os casamentos entre cavaleiros portugueses e mulheres indianas, logo nos primeiros tempos de presença portuguesa na Índia. Além disso, é uma total falácia e deturpação histórica afirmar que a colonização portuguesa foi brutal e sanguinária, em comparação com a Belga e com a Espanhola, a colonização portuguesa é quase um conto de fadas, não tivemos um rei Leopoldo que tinha uma colonia como sua propriedade privada e que cometeu lá algumas das piores atrocidades da colonização europeia em africa, nem chacinamos os povos que encontramos, apagando civilizações inteiras como os espanhóis fizeram com as civilizações pré-colombianas.

É importante frisar que, muitas das ações dos nossos antepassados colonizadores são aos olhos de hoje reprováveis, no entanto é importante vê-las no contexto da época e não cometer a manipulação de exagera o negativo e minimizar o positivo. Há poucos dias vi um excerto de um o da BBC em que mostravam um quadro de um pintor holandês que mostrava Lisboa no século XVI. O jornalista da BBC, descreveu Lisboa não como uma capital do século XVI mas como uma do século XXI recheada de pessoas das mais diversas etnias, e o mais importante a realçar é o facto de que existiam africanos em todas as classes sociais, ao contrário do que se costuma afirmar não eram todos escravos, havia também comerciantes, havia um cavaleiro da Ordem de Santiago e marinheiros. Logo acho que se pode daí concluir que dentro das realidades da colonização europeia, a nossa foi de longe mais tolerante e inclusiva do que as demais.

Por último, não podemos esquecer o contributo positivo que demos ao mundo, abrimos rotas de navegação e comércio, desenvolvemos as ciências e o conceito de mundo conhecido, espalhamos a nossa língua e a nossa cultura pelos quatro cantos do mundo, deixando por lá marcas que sobrevivem até aos dias de hoje e que são hoje consideradas cultura própria desses locais, fomos o primeiro país do mundo a abolir a escravatura, e muito mais poderia dizer. Não digo porque estes motivos são suficientes para perguntar o porquê de quererem passar uma borracha azul sobre a nossa história que tanto de bom trouxe a todos nós. O lápis azul da ditadura censurou a informação para tentar modelar o pensamento dos portugueses, este movimento de energúmenos que quer apagar a nossa história censurando-a não passa de um bando de tios Salazares de esquerda. Apagar a nossa história é um erro, faz parte de nós, quer gostemos quer não, foi através dela que evoluímos e melhoramos, e nunca esquecerei uma frase que a minha professora de História me disse muitas vezes, “Um povo que não conhece a sua história está condenado a cometer os erros do passado”, e tendo em conta aquilo que tanto criticam acho importante conhecer tanto o bom como o mau, relembrando e glorificando o bom, e conhecendo o mau para impedirmos que se repita. Olhar para monumentos alusivos aos descobrimentos e querer derrubá-los mostra uma simples falta de conhecimento histórico e uma enorme falta de capacidade de encarar aspetos menos negativos que todos estamos sujeitos a poder cometer algum dia, devido á nossa natureza humana, que é tudo menos inocente ou perfeita. Para alguns autoproclamados intelectuais de esquerda, não esquecerei nenhuma parte da nossa história e tendo em conta o aniversário que se celebrou no dia 1 de março, os 25 anos da amnistia às FP-25, não queria dar por terminado este artigo sem deixar toda a minha compaixão para com as vítimas desse grupo terrorista, que foi um ponto muito mais negro da nossa história do que a nossa colonização.

 

António Maria Petrucci Saraiva

Secretário-Geral Adjunto da JSD Covilhã