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O inclusivo e a sombra

Estamos em 2021 e cada vez mais se debate este tópico tão escandaloso, a sociedade como ator inclusivo. Inclusivo determina aquilo que inclui ou compreende outros elementos. Mas então, o que determina uma sociedade inclusiva? Nas bocas dos jovens, uma sociedade inclusiva é a sociedade que inclui e aceita todos os géneros, sexualidades, raças, religiões, etnias, culturas e por aí fora. Mas será que Portugal é uma sociedade inclusiva?

Não, não é. Não é inclusiva a partir do momento em que agentes da autoridade assassinam brutalmente estrangeiros por sede de sangue. Não é inclusiva a partir do momento em que um deputado do parlamento diz à boca cheia para outras etnias voltarem para as suas terras e que pessoas homossexuais são apenas doentes mentais. Não é inclusiva a partir do momento em que se dá mais lugar para a ignorância do que ao conhecer. Não é inclusiva, ponto.

E não vamos cair no truque mais velho de justificar os nossos atos. “Não sou racista, mas…” “Não tenho nada contra os gays, até tenho amigos homossexuais.” “Nunca tive problemas contra ciganos, mas um amigo meu já teve problemas e concordo que eles devem sair de Portugal.”

Portugal que tem um longo legado histórico de emigrações para os mais diversos países, não só da Europa como também das Américas; que consegue arranjar sempre alguma artimanha para acusar os outros de serem xenofóbicos com eles; que é o primeiro a fazer-se de coitado perante os outros pois é um país que sofreu durante imensos anos com o atraso económico e social; é também o primeiro sempre a mandar o que é de fora, embora. Somos sempre o primeiro país a dizer “não” em relação à etnia cigana. Somos sempre o primeiro país a dizer “não” a muçulmanos que apenas pretendem praticar a sua religião, afinal, são todos terroristas. Somos sempre o primeiro país a desrespeitar a escolha de género e a escolha da nossa sexualidade. Isto é ser incluso?

Portugal não é só feito da política e daqueles que a praticam no parlamento e a nível internacional. Portugal é feito da dona Maria e do senhor Joaquim das terrinhas. Portugal é feito do Manuel que trabalha na Câmara Municipal de Lisboa e da Cátia que trabalha numa embaixada. Portugal é feito por todos nós, cada um diferente na sua forma de ser e de vestir. Uns somos mais altos, outros mais baixos; uns somos mais esquisitos e intimadores e outros mais afáveis e sempre de sorriso na cara. A nossa sociedade é feita e composta pelas diferenças que nos caracterizam, sejam elas a nossa religião (judaica, cristã, muçulmana, hindu), a nossa raça (branca, asiática, negra) e acima de tudo pelas diferentes culturas que foram interagindo entre si com o abrir de fronteiras.

Se somos um povo assim tão célebre, porquê assumir que só existe uma raça soberana? Porquê assumir que só quem é branco, é que é português? A lei parece que não se aplica a quem assim pensa. De acordo com a lei 37/81 de 3 de outubro, o artigo 1 estipula, entre várias alíneas, que se um indivíduo nascer filho de pai ou mãe portuguesa, é oficialmente um cidadão de nacionalidade portuguesa. Mas depois lá vêm os sabidos da verdade, os detentores da mesquinhez hierárquica dizer que só é português quem é branco. Só é português mulher e homem heterossexual. Só é português o casal em que ela é dona de casa, sempre feminina e ele o trabalhador que sustenta a casa e é o macho da mesma. Só é português quem nasceu no berço de uma família típica dos tempos de Salazar.

Estamos em 2021, Salazar morreu há mais de 50 anos. Mas nós, como bons samaritanos, continuamos a viver no passado, continuamos a viver de acordo com ideais obsoletos e que nos afrontam a memória. Sabem o que vos digo? É que os meninos e meninas estão muito mal habituados. Cresceram se calhar num lar pouco humilde ou pouco culto e consideram que a única forma de combater a precariedade e a fome é expulsar quem usurpa o pouco de bom que resta. Já antes haviam certos postos de trabalho e que ninguém alguma vez ousou querer. Mas quando chega um imigrante angolano, ou brasileiro e aceita ficar com o trabalho, já são os maus da fita e que roubam o que é nosso.

Meus amigos, a época do ouro brasileiro e da superioridade portuguesa acabou. Estamos em instituições internacionais que lutam pela igualdade de direitos e que promovem a liberdade. Mas o português como adora ser do contra, acaba por arranjar sempre algum argumento para lutar contra os ideais defendidos lá fora.

Chega de ignorância, abrace-se a diferença!

Mafalda Carvalho.