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O facho

Segundo a Porto Editora, a palavra facho pode ter vários significados, entre os quais “o que ilumina ou esclarece”, “o que desencadeia ou desenvolve uma ação ou um sentimento” ou “Derivação regressiva de fascista”. André Ventura enquadra-se nas duas últimas. Mas quem vota nele só o vê enquadrado na primeira.

Provavelmente boa parte das pessoas que estão a ler isto hão de estar a pensar algo género “porque é que continuam a falar neste personagem?”, “só lhe dão palco”, “quanto mais falam nele mais o ajudam”. O argumento que muitos usam de que “quanto mais atenção lhe damos mais força ele ganha” é um argumento que pura e simplesmente não se coaduna com a realidade. E eu explico porquê.

Quando o Chega apareceu, no princípio, a grande maioria das pessoas e dos comentadores e colunistas não deu grande importância. Preferiram ignorar, fazer de conta que não existia, na esperança de que não crescesse. Ora, essa estratégia de ignorar e fazer de conta que nada se passa levou-nos onde? A lado nenhum. Na verdade foi exatamente com essa estratégia falhada de “deixa andar”, “Não lhe vamos dar palco”, que ele começou a crescer e a ganhar bastantes apoiantes, de vários ramos políticos.

É importante perceber uma coisa já. Estes senhores já ganharam o palco, eles têm o palco todo. Ao ignorarmos a situação, e fazermos de conta que nada se passa, eles conseguiram, através das redes sociais e de alguma comunicação social ganhar o protagonismo que precisavam. Agora, está na hora de também nós subirmos ao palco e expulsarmos esta gente. Não podemos ignorar o elefante na sala. A democracia é feita de diálogo e de acordos, é verdade. Mas quando esse diálogo é feito com forças extremistas que pretendem danificar a democracia e implantar um estado autoritário, restringir liberdades, retirar direitos e despromover garantias dadas pela constituição, nós não estamos a ajudar a democracia, estamos a ser cúmplices da sua destruição.

O Chega, sendo um partido de extrema direita ou de direita radical, sendo um partido ultraconservador ou sem qualquer ideologia, não deixa de ser um partido perigoso. O chega tem elementos da extrema direita infiltrados, militantes que vieram do PNR e outros que estão ligados à extrema direita musculada. Todos conhecem o vice presidente, Pacheco Amorim, e todos sabem que no PREC este senhor esteve do lado errado da História. Todos viram a campanha anti-ciganos que André Ventura fez desde o início da sua carreira política, todos viram o deputado único do partido mandar um deputada (Portuguesa) ir para a sua terra, todos viram André Ventura dizer que queria “A ditadura das pessoas de bem”, e todos vimos, há cerca de uma semana, todo o parlamento levantar-se e bater palmas em memória pelas vítimas do nazismo – todos, menos um – André ventura. Alguém que se diga democrata não pode ser a favor de nenhuma ditadura, seja ela de que tipo de pessoas for, nem pode ser indiferente a um acontecimento tão brutal como o holocausto. Tudo isto são exemplos claros e cristalinos de que o chega não é um partido democrata, tem uma índole fascista associada e não defende os valores da liberdade, que são fundamentais para a manutenção de uma democracia. E as pessoas, ao contrário do que se diz, sabem isso. As pessoas sabem. Mas afinal, porque votam nele?

Esta é a grande questão que tem de ser respondida. Porque existem 500 mil portugueses a votar num candidato ou num partido (veremos na legislativas), com estas características?

Em primeiro lugar, e antes de responder, é importante dizer duas coisas. Primeiro, podemos dizer ao mesmo tempo que o Chega é André ventura e que o Chega não é André ventura, e sem que nos contradigamos. Na verdade, o chega é André Ventura no sentido em que o partido é unipessoal. O partido existe porque o político Ventura existe, e se de repente AV desaparecesse, o partido provavelmente desaparecia ou perderia quase toda a sua expressão. Por outro lado, o chega não é André ventura, porque grande parte das pessoas que votam no chega não votam pelas ideias do partido (que vão mudando conforme o vento), mas sim pela pessoa André ventura.

Em segundo lugar é preciso dizer algo que penso que todos sabemos, apesar de haver comentadores que o ignoram. Não temos 500 mil fascistas em Portugal. É impossível que as 500 mil pessoas que votaram neste senhor sejam todas fascistas. É impossível que os 3670 votos que teve no concelho de Castelo Branco sejam todos de pessoas fascistas. E isto leva-me, finamente à resposta à pergunta que todos fazem.

A única justificação que encontro, e não estou sozinho nisto, que explica a grande votação nesta pessoa é o fenómeno da inversão de valores da nossa sociedade. As pessoas que estão descontentes com o sistema, que estão fartas dos políticos, que estão fartas da corrupção, não vêm, na sua maioria, em André ventura um salvador, que vai resolver todos os problemas. Estas pessoas vêm nele alguém que abane o sistema e que faça com que o estado de coisas mude. É um pensamento erróneo e idiota, tendo em conta que esse abanão traz consigo um conjunto de afirmações e ações inaceitáveis na nossa sociedade e uma polarização do sistema político semelhante à de outros países com o mesmo problema. O que se passa é que as pessoas que votaram nele, na sua maioria, deixaram de priorizar coisas como os valores da liberdade e da democracia, deixam de ser prioridades básicas, deixando-se levar no seu discurso populista e demagógico de messias. Outras, por outro lado, levam Ventura a sério mas não levam a sério o que ele diz, o que é errado. Porque mesmo que o que ele diga não seja a sério (e pode ser), existem outras pessoas que pertencem ao chega que levam aquelas ideias muito a sério e pretendem implementá-las.

Está na hora de as pessoas perceberem que combater o chega pelas ideias não é suficiente. Isso já foi tentado. Marcelo Rebelo de Sousa fez um trabalho extraordinário no debate que teve com Ventura. É meritório. Mas não é suficiente. As pessoas já não querem saber das incoerências do André Ventura, das contradições do programa do chega, ou das votações na AR. Por muito que se demonstre às pessoas a fraude que o partido é, muitas delas irão continuar a acreditar no messias, a apreciar a política do espetáculo que faz e a dar-lhe o seu voto. O combate pelas ideias não é suficiente, e está na altura de assumirmos, sem vergonha, posições mais claras e inequívocas em relação ao combate deste perigo.

Mas, para além disto, o que é também urgente fazer é resolver os problemas destas pessoas. Os partidos tradicionais não são totalmente inocentes nesta questão. As dificuldades económicas em que muitas famílias vivem é um fator fundamental na escolha do seu voto. A pobreza, a precariedade, o não conseguir avistar um futuro melhor, são aquilo que leva a que muitos eleitores se sintam na necessidade de “abanar o sistema” e isso é também responsabilidade dos partidos moderados.

A Social-democracia e o liberalismo democrático não se coadunam com este tipo de ideologias autoritárias e radicais, são aliás o seu contrário. Nunca um partido se pode dizer social-democrata se por uma questão de vontade de poder se sentar à mesa com este tipo de pessoas. A violência que isso exerceria à democracia e à confiança dos eleitores seria enorme, e seria uma contradição muito grande àqueles que devem ou deviam ser os valores do nosso partido.

Dizia Nagib Anderáos Neto dizia que “A única arma capaz de combater a violência é a inteligência”. Nós não estamos a ser inteligentes.

André Monteiro Pires