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Uma miríade de amigos!

Neste artigo, iremos realizar uma pequena reflexão, partindo de uma frase sobre o crescimento e a educação, do professor Orlando Lourenço: “Amigos? Sim, mas fixes! É óptimo que os jovens tenham amigos, mas não devemos orientá-los para um tipo de amizade em que só nos lembramos dos amigos quando precisamos deles ou nos podem fazer favores” (Orlando Lourenço). O acto de pensar deve ser estimulado, de forma a desenvolvermos as competências humanas que nos são pedidas. Devemos ter amigos pelo nosso “gosto”, sem imposições ou interesses, sem que esses amigos sejam uma imposição de outrem que condicione o nosso pensamento e verdadeira amizade.

Não nos devemos reduzir a uma mera construção de amizades por tendências, modas ou prazeres momentâneos sem sentimentos e compromissos. Devemos, portanto, estimular amizades que se desenvolvam em dois atos, o de nos doarmos e o de aceitarmos a doação do outro para connosco. Este acto de doar, o amor, que cria amizade verdadeira e sólida, tem vindo a ser deturpado e ridicularizado pelo facilitismo em que somos “educados”.

O amor que se quer racional, tem vindo a ser irracionalizado, pois deixamos de usar a mente para cairmos na imitação, no copy/paste dos amores e amizades dos outros. As nossas crianças estão a ser educadas para terem miríades de amigos, com base nas redes sociais e na popularidade que disso advém. Toda esta forma de educar as crianças e a nós mesmos, sem o verdadeiro sentido da amizade, leva a que nos sintamos sozinhos, embora rodeados de uma multidão de “amigos” ou o que quer que tenhamos parecido com isso.

Nos tempos em que vivemos, fortemente marcados pela pandemia e pelo isolamento, quantos de nós tivemos a capaciade de ligar ao outro para saber como está, se precisa de ajuda ou apenas para o confortarmos na sua solidão. Como nos dizia Santo Agostinho: “A amizade dilata o horizonte do amor”, tal como o amor, a amizade precisa de ser tratada e alimentada. Não nos podemos reduzir ao papel de sujeito passivo, a aguardar que o outro venha até nós. Só conseguimos amar verdadeiramente o que conhecemos, mas, como podemos conhecer o outro, se não lhe damos espaço e oportunidade? Temos reduzido todas as nossas relações a likes, comentários desprovidos de sentido e reações “cheias de corações”, e infelizmente vazias de sentimentos. Com este princípio das redes sociais, de termos muitos amigos, mesmo que não sejam “bons”, somos levados a cair na vulgaridade e imitação sem racionalidade. Esta forma de agirmos, condiciona a forma de educar as nossas crianças e jovens, que, ao seguirem este paradoxo de quantidade igual a qualidade e popularidade, acabam por não fomentar os sentimentos sinceros e racionais.

Para terminar esta nossa reflexão, deixo uma pequena frase de Santo Agostinho: “Podemos chamar ao outro amigo quando confiamos nele as nossas ideias”. Com esta frase, devemos inquietar-nos e refletir sobre o quanto confiamos nos nossos amigos. As nossas ideias são o que temos de mais puro, pois são fruto das nossas vivências e esforços. Quando as confiarmos aos outros, estamos a doar-nos por completo, como outrora já alguém se doou por nós.

Penamacor, 20 de Outubro de 2020

João com Maneiras