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China ou Auschwitz

Na região de Xinjiang, no noroeste da República Popular da China, habita o povo Uigur, uma étnia turca de religião muçulmana, que tem vindo a ser sistematicamente perseguida pelas autoridades chinesas e pela sua política de Sinicização, ou Hanização, ou seja a opressão, assimilação e limpeza dos povos não chineses dentro do seu território. Outras minorias dentro da RP China já foram vítimas desta mesma política, tais como os Tibetanos e os Cristãos.

A China utiliza como justificação para todos os seus abusos nessa região a luta contra o terrorismo, afirmando que apenas a 1 milhão de pessoas foi perseguida, referindo que nos últimos 40 anos a população de região mais do que duplicou. No entanto, apenas entre 2015 e 2018, houve uma redução de cerca de 84% da população nessa região. Testemunhas e informações recolhidas por agências ocidentais, revelam vários abusos dos direitos humanos por parte das autoridades de Pequim para com o povo Uigur, entre elas a esterilização e abortos forçados, o trabalho forçado em campos de reeducação, execuções e deslocações forçadas, a tortura, a colheita de órgãos forçada, entre outros.

Seria de esperar que a reação da comunidade internacional fosse de amplo e total repudio e condenação destas ações, no entanto tal não se verifica. Apenas a União Europeia, os Estados Unidos, o governo regional de Kashmir na India e o Governo Exilado do Turquestão Oriental (região de Xinjiang) expressaram a sua preocupação com a situação, além disso o Secretário para os Assuntos Externos do Reino Unido expressou a possibilidade de aplicar sanções à  China, no entanto nada foi efetivamente feito para punir as ações de Pequim em Xinjiang. No entanto, o mais chocante passa pelas declarações de apoio à política Chinesa em Xinjiang por parte de vários países muçulmanos, como a Turquia, devido à aliança estratégica de Erdogan com Xi Jinping na consolidação do seu regime autocrático, os Emiratos Árabes Unidos, o Irão, o Paquistão e a Arábia Saudita, estes últimos por interesses económicos e geoestratégicos. Outros países que branqueiam estas violações da China aos direitos dos Uigures são como já era de esperar a Rússia e vários países do sudeste asiático, que já praticaram o mesmo tipo de abusos nos seus territórios, como o genocídio Rohingya, no Myanmar. Algo que demonstra ainda mais a subserviência de alguns países do Médio Oriente à China é a deportação de cidadãos Uigures nesses países para os campos de reeducação na China.

A questão a colocar é a seguinte. Como podem tais atos passar em branco aos olhos de todos? Bem, o aspeto mais obvio é o poderio económico chines, que desencoraja muitos países a manifestar desagrado ou a aplicar medidas efetivas para punir estes atos, receando represálias económicas da China. Em segundo, a rede de alianças da China com a Rússia, Turquia, Irão e Arábia Saudita, permitem-lhe criar uma esfera de influência ampla e forte o suficiente para branquear os seus atos. Por último e talvez o fator mais importante advém da posição da China como vencedora da 2ª Guerra Mundial, e assim parte da Ordem Mundial que vigora desde o início da Guerra Fria, por via do seu assento como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Concluo deixando apenas uma frase, não é apenas a História que é escrita pelos vencedores, também são estes que decidem o bem e o mal. A diferença entre os campos de reeducação e extermínio chineses em Xinjiang pouco diferem dos campos de concentração nazis e da sua “Solução Final”. A única diferença entre Xinjiang e Auschwitz-Birkenau, é que os nazis perderam a guerra e os chineses ganharam.

António Maria Saraiva