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O milagre do SNS

Durante anos habituámo-nos a uma continua disputa entre partidos sobre qual seria o melhor caminho para o SNS devido às falhas que todos os partidos viam nele e que, de facto, existiam. No entanto, bastou uma pandemia para que magicamente a grande maioria destas falhas desaparecessem, algo particularmente estranho, porque se há altura em que estas falhas deviam ser evidentes era durante uma pandemia. No entanto, segundo o governo, o SNS que antes tinha problemas de capacidade agora parece ter capacidade mais do que suficiente. O verão passou-se, os casos de Covid-19 diminuíram e por momentos pareceu que a pandemia estava controlada e que não íamos voltar aos números de abril em que chegamos a ter 1,516 novos casos num só dia. No entanto com o Outono a aproximar se, os casos começaram, mais uma vez a aumentar, ultrapassando os 700 e mesmo os 800 novos casos por dia, números só vistos em abril. Por isso, uma questão se levanta. Estamos realmente prontos para uma nova vaga de Covid-19?

Segundo a DGS a capacidade de Medicina Intensiva aumentou em 23%, passando de ter 629 camas disponíveis para 819. Algo que é sem dúvida importante, mas há algo mais importante que parece estar a ser esquecido ou negligenciado. O SNS não serve só para lidar com o Covid-19. Em agosto morreram 8,866 pessoas, um acréscimo de 506 pessoas em comparação à média deste mês nos últimos 5 anos, das quais o Covid-19 só justifica 18%. Se compararmos à média dos últimos 10 anos o valor é ainda menor só justificando 13%. Nos primeiros meses da pandemia (abril, maio e junho) o Covid-19 era responsável por grande parte do aumento de óbitos 54%, 45% e 44%, respetivamente. No entanto em julho este valor diminuiu para 7%. Com isto surge uma pergunta: Se o número de óbitos por Covid-19 está a diminuir, porque é que o número de óbitos por outras doenças continua a aumentar em relação aos últimos anos?

Se calhar as falhas do SNS permanecem iguais, mas são menos faladas. No primeiro semestre deste ano, as consultas presenciais em centros de saúde caíram 36%, representando menos 3.8 milhões de consultas. As consultas em Hospitais do SNS caíram 22%, no caso de primeiras consultas, e 11% no caso de consultas subsequentes, representando menos 902 mil consultas. Os episódios de urgências caíram 27%, representando menos 839 436 episódios e as cirurgias caíram em 27%, diminuindo 30% as cirurgias programadas e 10% as cirurgias urgentes. Muito se tem falado das Teleconsultas, e estas, realmente merecem destaque pois aumentaram em 40%. No entanto a eficácia das mesmas é muito mais baixa do que uma consulta presencial. O presidente do APAH, Alexandre Lourenço, comentou o assunto dizendo: “Os números da telemedicina até podem ser positivos, mas este recurso será sempre complementar, e ainda não está consolidado de forma uniforme em Portugal, e pode mascarar uma realidade que se pode tornar ainda mais grave num futuro próximo”.

Com todos estes dados concluo que ou os portugueses pararam de ter, magicamente, outras doenças ou que algumas destas não foram diagnosticadas. Esperemos que se trate da primeira e que o SNS realmente esteja preparado para uma segunda vaga.