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Está na hora de educarmos os nossos pais

Se está a ler este texto no Blog Aqui entre nós, da JSD Distrital de Castelo Branco, é bom sinal, pois significa que me dão a liberdade para me expressar sobre assuntos polémicos, talvez irritantes até, e diria mesmo sensíveis no seio da própria direita Portuguesa.
Costuma-se dizer, popularmente, que quanto mais se mexe na porcaria pior ela cheira. Sinceramente, a minha intenção não era que isso acontecesse, no entanto, com muita pena minha, vejo-me obrigado a vir falar sobre um grupo de energúmenos, que segundo o tribunal constitucional, pode ser chamado de partido político e segundo algumas pessoas da dita direita moderada, pode até ser um possível parceiro de negociações caso o PSD venha a ganhar umas eleições legislativas e a precisar de se aliar a outras forças políticas para formar governo. Penso que todas já perceberam daquilo que estou a falar.
Quando o ch3ga foi formado e oficializado como partido, de forma ingénua eu não acreditei que em Portugal fizesse grande moça. Não estava a ver o meu país a cair no erro de se deixar levar pelo populismo de um oportunista hipócrita. Enganei-me. Hoje, o que me preocupa, não é apenas o ch3ga, o partido da Marine Le Pen ou Viktor Órban. Hoje, infelizmente podemos dizer que os partidos de extrema direita populista e autoritária já existem, e de forma assustadoramente mais forte, por quase todos os países da Europa.
Quando entrei para a JSD, e posteriormente para o PSD, tinha como prioridade defender os valores associados à social democracia, ao liberalismo social e lutar por uma sociedade mais justa, mais equilibrada, por maiores condições para os jovens, para a criação de emprego e pela defesa de políticas direcionadas para o crescimento económico e criação de riqueza no nosso país. Isto tudo, porquê? Porque achava que as questões básicas da sociedade já estavam resolvidas, ultrapassadas. Vejo que não. Se o tema do racismo, da xenofobia e de outras formas de discriminação são ainda hoje um problema, e pior, se estão a agravar, é porque a sociedade falhou, a educação falhou, os políticos falharam, muita coisa falhou. Mas pior, muito pior que isso, é que este problema é tão mais acentuado quanto maior for o escalão etário a que a pessoa pertence. Ainda esta semana o ministro da saúde Alemão foi insultado por um grupo de pessoas que eram contra o uso de máscaras (logo aí se vê o nível de inteligência), mas foi insultado por ser homossexual. Esta semana, 2020, século XXI. Por-ser-Homossexual.
Se repararem bem no perfil das pessoas que nas redes sociais, nos cafés ou noutro qualquer espaço público manifestam opiniões racistas, xenófobas ou homofóbicas, podem observar que muitas delas pertencem a um escalão etário mais avançado. Pela minha experiência, a maioria das pessoas que manifestam estas opiniões (e repito, é a maioria, não todas) são adultas, não são jovens, são pouco informadas e têm um grau de escolaridade inferior. Ora, muitas destas pessoas são nossos pais, nossos avós, tios ou familiares com maior ou menor grau de parentesco.
Caro leitor, peço-lhe que faça a seguinte experiência. Imagine que tem um filho homossexual, ou negro, ou pertencente a uma outra minoria. Como se sentiria a ouvir ou a ler comentários do tipo “maricas de merda”, “preto, vai para a tua terra”, ou outros tantos que tenho lido e ouvido em diferentes contextos? Certamente não iria gostar que isto acontecesse. No entanto, este problema não se resume aos insultos e à discriminação em si, este problema tem a ver diretamente com a vida das pessoas, e quando falo de vida, é de risco de vida. Conheço um caso, perto da minha localização, de uma rapaz que era homossexual e se suicidou, sabem porque? Porque o pai não aceitou a sua homossexualidade. Não aceitou, reparem. Como se o pai tivesse sequer de aceitar alguma coisa, como se a palavra “aceitar” fizesse sequer sentido neste contexto, como se o filho tivesse sequer de dar qualquer justificação que fosse em relação à sua orientação sexual. NÃO, NÃO, NÃO. Nós não podemos deixar que isto continue, não podemos deixar que continuem a morrer pessoas, seja física ou psicologicamente, porque a verdade é que um simples ato de racismo ou homofobia, mata uma pessoa por dentro, corrói, e em último caso faz com que ela termine a própria vida.
Estamos em 2020, em pleno século XXI, e temos em Portugal grupos tipo Ku Klux Klan, grupos de pessoas a defenderem a ideologia fascista, homicídios por motivo racial, suicídios de pessoas oprimidas e desprezadas por terem mais melanina na pele ou por nascerem a gostar de pessoas com o mesmo sexo. O que é isto?
Caro leitor, jovem que estás a ler isto, o futuro está nas nossas mãos e a responsabilidade de tomar as rédeas deste sistema é nossa. Está na hora de começarmos a educar os nossos pais, os nossos avós, tios e tias, primos e primas, para que eles não caiam no erro de dar um voto a um oportunista, a um partido fascista, a um partido que branqueia o extremismo e a opressão das minorias. Um voto nesse partido significa dar mais força ao extremismo, á opressão, à injustiça. Um voto nesse partido significa estar a contribuir para uma sociedade mais atrasada, menos tolerante (detesto esta palavra), menos livre.
Eu não quero viver numa sociedade menos livre, eu não quero sentir que vivo oprimido e desprezado, nem que outros o sintam, apenas porque têm características genéticas ou comportamentais diferentes. É triste, muito triste, um rapaz de 20 anos, como eu, sentir a necessidade de pedir à sociedade que acorde para a realidade, que acorde para o triste e inaceitável panorama em que vivemos, em Portugal, na Europa e no mundo.
Hoje, a minha prioridade é só uma: lutar pela liberdade. E se para isso tiver de dar o meu suor, as minhas lágrimas, o meu emprego, ou a minha vida, fá-lo-ei, na mesma, porque sou dono de mim próprio, do meu pensamento e ninguém nos pode conseguir calar.
Lutemos contra o extremismo, o totalitarismo e a opressão, antes que esses monstros acabem com a única coisa que faz sentido nesta vida, a liberdade.
André Monteiro Pires