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À rasca outra vez

Se é certo que a pandemia da COVID-19 nos colocou diante de um verdadeiro desafio de saúde pública para o qual ninguém – entidades de saúde, governo, empresas e escolas – estava preparado, a questão que se levanta é se temos Portugal preparado para uma eventual 2ª vaga no inverno. Infelizmente, receio que não.

Ultrapassado o estado de emergência em que Portugal mergulhou, urge agora refletir sobre as consequências socioeconómicas da pandemia, nomeadamente, o impacto no mercado de trabalho português. Apesar da evidente janela de oportunidade que a COVID-19 abriu, enquanto impulsionadora de uma transição mais acelerada para o teletrabalho, não foram raros os jovens e os menos jovens que se confrontaram, após o fim do estado de emergência, com a necessidade de ter de procurar um novo emprego.

O impacto da pandemia e do confinamento ultrapassa largamente o campo da saúde pública. Vivemos, hoje, uma crise económica que veio agravar desigualdades já existentes na sociedade portuguesa.

Portugal tem um mercado de trabalho pouco robusto, sensível a choques adversos e com uma elevada prevalência de contratos laborais precários. O impacto desta crise nas desigualdades depende da idade, das qualificações, da estrutura familiar e até do género.

Assim, venho dizer-vos que, infelizmente, são novamente os jovens os mais prejudicados. Crescemos em crise e estamos à rasca outra vez. Já sabemos de cor, dizem sermos da geração mais qualificada de sempre. Mas voltamos a ver o nosso país falhar-nos. É a nossa geração que vê os nossos empregadores asfixiados em impostos e sem condições para nos manter nos postos de trabalho. É esta nossa geração que se vê de um momento para o outro desamparada, sem perspetivas de futuro e com o seu projeto de vida em stand-by. Não podemos mais adiar uma geração.

Hoje, sabemos que existem menos 122 mil jovens empregados no 2º trimestre do ano, o que representa dois terços do total da destruição de emprego com a pandemia COVID-19. Hoje, sabemos que muitas das empresas obrigadas a fechar em pleno estado de emergência, não voltaram a abrir. Hoje, sabemos que uma boa parte do tecido empresarial português (maioritariamente composto por micro e pequenas empresas) encontra-se refugiada no regime de lay-off para manter os seus postos de trabalho.

Como será quando o regime de lay-off terminar? Até onde é que irá parar esta destruição de emprego jovem?

A nossa geração sabe o que quer e sabe o que precisa. Queremos muito trabalhar, só queremos que nos dêem a oportunidade. Precisamos que nos garantam um futuro em vez de nos dizerem que somos o futuro. Precisamos de ações concretas em vez de programas folclóricos.

A nossa geração necessita de uma reforma urgente e profunda do mercado de trabalho. Uma reforma que nos proteja simultaneamente a que incentive que sejamos contratados. Terá de passar, necessariamente, por um alívio fiscal às empresas que contratem jovens e por incentivar a contratação sem termo uma vez que, entre 2008 e 2018, 65% dos trabalhadores jovens com menos de 25 anos tinham contratos a termo. Como construir um projeto de vida sem um contrato que assegure alguma estabilidade?

Urge estancar o aumento do desemprego jovem e apoiar quem emprega, principalmente, as empresas dos setores mais afetados como é o caso da restauração e do turismo.

A nossa geração precisa de emprego. Portugal precisa desta nossa geração!

João Pedro Louro