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Mas afinal de quem é a culpa?

Ouvimos por vezes alguns adultos suspirar com saudades da sua juventude, aqueles mais magoados pela vida, a dizer que a juventude está perdida e outros a concordarem que, de facto, a juventude reside no espírito.

Tem estado na ordem do dia a imprudência dos jovens. Temos sido siderados de alto a baixo porque vamos à praia ou porque procuramos um sítio alternativo para beber um copo com os amigos.

As temperaturas começam a subir e o nosso corpo começa a pedir que o refresquem, seja por dentro ou por fora. Mais do que isso, acredito que um jovem e o seu corpo lhe peça para sair de casa. Sou um jovem de 30 anos, nascido e criado no interior de Portugal e, ainda que não tenha sido confinado a um espaço, sinto a necessidade de sair para fazer a minha vida. Acredito, portanto, que tal como havia a necessidade de a economia abrir, existe também a necessidade de um jovem desconfinar.

Muito já se falou sobre a COVID-19. Eu deixei de ter interesse no tema. Sigo os cuidados recomendados pelas entidades competentes, mas desisti de acompanhar notícias, estudos, comunicados, diplomas, enfim o que for. Desisti porque desde o país “X” que tem um grupo de cientistas a trabalhar numa vacina, ao “Y” que tem conseguido melhorias com uso de um fármaco para outra patologia qualquer, existem as notícias do nosso quadrado à beira mar plantado que nos fazem doer a vista e a alma, por exemplo, o facto de a culpa ser dos jovens, responsabilizando-os pelo incremento de casos no nosso país.

Não esperava que o Sr. Primeiro Ministro ficasse com as culpas. Não o fez em Pedrógão ou Tancos, nunca o fez e tenho para mim que nunca o irá fazer. Mas talvez a culpa tenha sido dele, por querer e possibilitar um desconfinamento tão rápido, por colocar a economia acima da saúde pública, por fomentar uma política que só traz assimetrias sociais ao nosso país, em suma pela sua enorme falta de noção.

Mais grave que tudo isto, é a imagem que se deixa transparecer. Fico com a sensação que nos focámos todos no combate à doença, com o facto de diariamente sermos bombardeados com o tema e, quando damos por ela, vimos 850 milhões de euros voar numa nova operação de injeção de capital no Novo Banco. Somos brindados na manhã do dia 30 de junho de 2020 com a nacionalização da TAP, ficando a questão de quando começam as obras no aeroporto do Montijo. Não esquecendo claro a birra do Ronaldo das Finanças, e todo o jogo político a ele associado, que o levará a governador do Banco de Portugal.

Queremos parecer grandes aos olhos de outras pátrias, mostrar a nossa falsa riqueza, dotar o nosso país e empresas de mais e melhor. Mas e condições para quem sustenta isto tudo? Onde estão melhorias de condições de trabalho e salariais para os profissionais de saúde? Onde está o bónus para a tão aclamada e proclamada linha da frente? Para bombeiros ou militares das forças de segurança pública? Batemos palmas e oferecemos a Liga dos Campeões? Para quando melhorias consideráveis nos transportes públicos? Para quando melhores condições de vida para os habitantes de bairros sociais? Porque raio a UEFA não paga impostos e eu tenho que suportar tudo isto?

Desculpar-me-á o caro leitor pelo “mix feelings” aqui ocorrido. Mas tudo isto para chegar à conclusão que, culpar a juventude depois de todo o seu esforço, não é de todo apropriado. Culpar a juventude por ter ido à praia e não dar condições a quem viaja enlatado numa carruagem de metro não me parece apropriado, tal como não me aparece apropriado apontar o dedo a alguém, quando nós ou os nossos parceiros não damos o exemplo.

É muito bonito ir à janela bater palmas, mas depois temos atitudes de gozo, como comemorações do 1º de maio ou o Festival do Avante. É muito engraçado ver o país voltar à sua rotina diária, mas de que vale se no trajeto para a Azambuja pode levar a um alastrar do contágio? De que vale se tenho que ir trabalhar para sobreviver, se tenho que ir trabalhar para pagar ordenados chorudos a administradores de companhias aéreas ou bancos privados e depois o meio de transporte que uso é uma bomba relógio? Terá sido um jovem a dar a ordem de que tudo estava bem e que podíamos voltar ao normal?

Acima já referia que sou um jovem de 30 anos. Sou um jovem que tenho conseguido sobreviver a esta pandemia que, tal como tantos outros, viu as suas rotinas alteradas, que tenho trabalhado todos os dias para uma melhor qualidade de vida, que tenho estado recolhido e sou um jovem a quem não foi questionado se aceitava salvar um banco ou uma companhia aérea.

Sou um jovem que trabalha desde os 19 anos, sou um jovem que procura marcar a diferença na sociedade, estando disponível para ter uma participação cívica ativa. Sou um jovem que gosta de trabalhar, mas que gosta de poder ficar com o seu ordenado no bolso, para ter casa própria, uma vida desafogada, viajar de quando em vez ou algo tão simples como poder receber os amigos uma vez por mês, em casa para jantar.

Sou também um jovem preocupado com postos de trabalho. Não quero ver ninguém ficar sem o seu ganha pão. Mas quando salvamos empresas como a TAP ou o Novo Banco, também temos que ter a capacidade de ajudar o jovem empresário ou aquela empresa que tem vindo a sobreviver, ano após ano, e que provavelmente, até emprega metade da aldeia ou freguesia.

Já toquei em dois ou três temas preocupantes, e o leitor deverá estar a questionar-se porque ainda não falei do turismo e do impacto que a doença está a ter no seu setor. Com os aeroportos às moscas e as fronteiras fechadas, são poucos os turistas que se avistam e esperam por cá. O aumento de casos que têm sido registados, também não abonam nada a nosso favor com alguns países, como o caso da Grécia, a colocarem-nos numa lista negra de locais a não visitar nos próximos tempos.

Parece-me que a crise que se avizinha será inegável, com a região do Algarve a ver muita reserva cancelada, com lucros de outrora a ficarem numa miragem lá para os lados de terra de sua majestade. Por outro lado, dá a sensação que o interior foi premiado com a pandemia, levando um selo de destino de qualidade e segurança. Não me consigo lembrar do último fim de semana que tenha havido sossego no centro de Portugal e não haverá tão cedo, com a chegada do Verão. Certamente que podemos esperar bons resultados para a economia local.

Esperemos também que os timoneiros do nosso país saibam colocar a mão na consciência, que aprendam a medir palavras e ações, e que comecem a dar valor a quem realmente o merece: o povo Português.