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Portugal remata ao poste, outra vez

Dizem que Portugal é Futebol, Fado e Fátima.  E aparentemente, o nosso Primeiro Ministro, estimado António Costa acredita piamente neste princípio. Na impossibilidade de chamar os três pastorinhos de volta e tendo em consideração que o Panteão Nacional continua fechado, pelo que não foi possível contratar Amália Rodrigues, eis que o vetusto Governo da República focou os seus esforços em trazer a fase final da Liga dos Campeões para Portugal. Atingido o objetivo, que já havia sido premeditado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o grande momento foi apresentado com pompa e circunstância, com a presença de vários ministros e políticos e foi pintado por António Costa como um prémio à dedicação dos profissionais de saúde, rapidamente corroborado por Marcelo, que diz que este tipo de iniciativa “não tem preço”.

 

Pois bem, a situação do País, a caminhar rapidamente para uma crise de proporções nunca antes vistas, tem já uma fatura (e, portanto, um preço) bem pesada, que pagamos e vamos continuar a pagar durante muito tempo. Ao mesmo tempo que o número de infetados com COVID-19 continua a aumentar de forma pronunciada, o Governo diverte-se a apresentar a realização duma final duma competição europeia como sendo o fruto de laborioso esforço de todas as partes. Ao mesmo tempo, surgem exemplos vindos de todo o mundo sobre formas de recompensa aos profissionais de saúde realmente úteis – quiçá um bónus ou um aumento, diria este vosso escriba e certamente também o leitor.

 

Este episódio foi um momento de puro e triste populismo político, e estou certo que nem o mais fervoroso adepto futebolístico poderá assentir com o orgulho, felicidade e entusiamo que o Governo exibe sobre a realização deste evento. Num momento em que as Finanças do país enfrentam um novo desafio, em que a capacidade instalada dos principais hospitais de primeira linha em Lisboa aproxima-se perigosamente do seu máximo (noticiado, por exemplo, no Hospital Beatriz Ângelo, sendo rapidamente desmentido depois), insistimos na narrativa do “está tudo bem”, “vai ficar tudo bem” ou a minha favorita pessoal “a culpa é dos jovens que se juntam ilegalmente”.

 

O Governo que rapidamente culpa os ajuntamentos de jovens pela descontrolada evolução da COVID-19, que limita as liberdades individuais dos cidadãos sem o devido contexto constitucional, é o mesmo que permite manifestações políticas amiúde (num caso concreto, sobejamente conhecido, afigura-se mais a um festival de verão do que “evento político”) e agora simultaneamente promove a realização dum evento de grandes dimensões e logística.

 

Se em setembro as escolas não puderem reabrir ou se tivermos de voltar a ficar em casa, será que podemos culpar novamente os jovens?