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A destruição criativa e a inércia destrutitva

A conjuntura pandémica veio, incontornavelmente, agitar as águas do mundo e da sociedade em que vivemos. Neste dias em que, aos poucos, vamos oxigenando as rotinas e hábitos que trancámos a sete chaves nos últimos dois meses, há um certo subconsciente em nós que parece não querer desistir de idealizar um cenário em que todos voltamos, numa espécie de cápsula do tempo, à semana que antecedeu o anúncio do Estado de Emergência e daí seguimos com as nossas vidas – business as usual. Será a mesma dimensão de nós que, por agora, quer só reviver e desfrutar da sensação do café na esplanada, o jantar fora, o pôr-do-sol na praia – coisas cuja essência, por muitas vezes que o mundo se vire do avesso, haverão de se preservar, porque para nós estão bem assim e cumprem o seu propósito.

 

Ora, não sabemos ainda quando podemos decretar o dia zero desse “mundo pós-COVID”, mas uma coisa é certa: vai ser um mundo diferente do que abraçámos em março de 2020. Porquê? Porque o ser humano respondeu a esta crise com a sua melhor virtude: adaptou-se. Ainda é cedo para dizer ao certo que mundo teremos – se mais ágil, se mais cauteloso – ou se o mundo que teremos será melhor que o que tínhamos, mas diferente será certamente. Consequência primeira dessa adaptação foi a sensibilidade e o engenho de identificar formas mais eficientes de responder a desafios que certamente já existiam, mas cuja necessidade de resposta se aguçou nestes últimos meses. O modelo de teste para identificação do coronavírus demorava inicialmente horas a alcançar um resultado, e hoje em dia já temos testes eficazes e precisos que demoram 3 minutos e cujo fundamento científico poderá ter utilidade noutros contextos futuros. O complexo processo de desenvolvimento de uma vacina, que em contexto normal demora vários anos a completar com sucesso todas as etapas regulamentares que lhe estão destinadas, dá hoje lugar à expectativa (ainda que pouco provável) de ter disponível uma vacina eficaz num período inferior a um ano, com potenciais consequências positivas para a investigação de futuras terapêuticas. Um pouco por todo o mundo, inclusive em Portugal, foram concebidas versões altamente inovadoras de ventiladores para uso hospitalar, podendo isto ter servido como estímulo para o desenvolvimento de outros dispositivos médicos. O nosso sistema de saúde, perante a necessidade de salvaguardar a gestão e controlo dos doentes crónicos que viram as suas consultas suspensas, viu-se impelido a mergulhar no mundo das ferramentas digitais como única alternativa de salvaguardar a proximidade ao utente. Numa outra dimensão, temos hoje um grande número de multinacionais a avaliar positivamente o impacto dos regimes de teletrabalho e a considerar esta como uma modalidade a preservar, com benefício para a empresa e para o trabalhador. Mesmo a nível do setor hoteleiro e de restauração, apesar do forte impacto económico que se adivinha, haverá certamente a virtude de desenvolver conceitos e abordagens alternativas que reponham o fluxo e confiança dos clientes. Enfim, a Economia já mudou. Fez o que lhe está na essência: adaptou-se, inovou. Sem querer dissertar sobre teoria da inovação, este é um cenário que me faz sentido encaixar no fenómeno de destruição criativa conjeturado por Schumpeter. Esta pandemia veio projetar-nos numa espiral disruptiva de busca por novas – e, se possível, melhoradas e mais eficientes – formas de responder a desafios societais básicos que se nos colocam diariamente, da saúde à educação, passando pelo ambiente e pelo turismo.

 

Mas não resisto a contrastar este cenário de aparente progresso com uma dimensão particularmente portuguesa: a limitação transformadora do seu “mundo político”. Porque será que a política continua a ser o terreno menos fértil para a inovação – de ideias, de argumentos, de processos? Num cenário como o que vivemos, seria expectável que a maturidade do combate político atingisse um expoente máximo em linha com as responsabilidades que todos os partidos têm pela frente. Ao invés disso, o que tivemos nestes dois meses? Várias discussões anacrónicas, ousadias inconsequentes, graves leviandades institucionais, comunicação errática e uma demarcada sensação de falta de liderança em não poucos aspetos. Seria também de esperar que um período de distanciamento interpessoal como este viesse abrir caminho para importantes reconfigurações internas no funcionamento dos partidos – e aqui só posso falar do PSD. Ainda não estão à vista, mas espero que venham a estar.

 

A pandemia vai passar, e os indícios são de que a política vai ficar na mesma. Até quando será este o palco principal da nossa democracia? De que crise precisamos mais para perceber que a engrenagem de discussão de políticas públicas em Portugal se deve reger por outras formas de trabalhar, por outro palavreado, por outra fasquia?

 

Atravessámos, durante o confinamento, o aniversário mais importante da nossa história democrática. Devo dizer que, nos meus 26 anos, nunca antes me tinha refugiado tanto na vivência espiritual desta data e do que ela nos trouxe. Talvez porque este ano a assinalámos enquanto o mundo nos mostrava como, potencialmente, tudo está em risco. A democracia em Portugal não está em risco, mas comprometemos a sua qualidade a cada dia que compactuamos com esta inércia destrutiva, que teima em nos impedir de inovar e modernizar os partidos e a política por dentro, por fora e de os adaptar a um mundo que não vai parar para esperar por eles. E quem diz por eles, diz por todos nós.