Blog

O Declínio Internacional

Creio que muito se tem falado sobre o que vai acontecer à União Europeia, dada a sua resposta perante este fenómeno de globalização desta pandemia; António Costa dizia-nos há um par de dias que “União Europeia faz o que tem a fazer ou acabará” devido aos efeitos económicos e sociais que esta pandemia está a causar e antes já desta catástrofe de contaminação, haviam algumas dúvidas que voltaram ao de cima, quando se falava em União Europeia,  por causa da situação dos refugiados que entraram na Grécia porque a UE não cedeu às exigências turcas. Bem, parece que temos um caldo de brócolos em mãos e que não vai ser fácil de lidar com ele.

Decidi fazer este artigo dedicado à UE, uma vez que de facto é uma das estruturas políticas que mais me fascina, não só pelo seu modo de trabalhar, como também pela cooperação que esta implica para o seu correto funcionamento e pelo facto de que tem servido o seu fiel propósito vital e tem afastado os países europeus de mais uma guerra. Mas será que isto permanecerá assim por muito tempo? Ou será que vamos ter de dizer um adeus breve à UE?

Bom, de facto acho que estou a ser extremista, mas assusta-me um pouco toda a polémica que tem pairado sobre esta estrutura. Não só derivada desta pandemia manhosa que nos tem posto cada vez mais à prova, mas também pelas consequências que esta está a trazer e a incerteza do que se passará nos próximos tempos.

Temos tido grandes exemplos de como está a ser complicada a jornada que os países já infetados estão a sofrer, e nem falo só no caso italiano; também falo do caso dos espanhóis, do caso dos recém saídos ingleses, e se calhar dos países mais desenvolvidos como é o caso da Alemanha que tem demonstrado não ter também mãos a medir face à situação que temos em mãos. Será que a culpa reside apenas na UE? Será que só a UE deve ser responsabilizada pela falta de resposta imediata às situações que têm emergido no palco internacional?

Meus amigos, no ano passado tive uma cadeira dedicada à União Europeia e ao seu funcionamento, às teorias que rondam o porquê de esta se ter formado, e outras partes que não interessam tanto para aqui; nela debatemos o porquê de os países se terem unido num só para lidar com a situação não só económica como também social que tínhamos em mãos (relembro que começou ainda antes da verdadeira UE, um projeto denominado CECA, cujo objetivo principal era a exploração da economia estando os países em cooperação uns com os outros) e creio que a teoria que mais me fascinava, era a teoria que dizia que os países se reuniram num só, abdicando um pouco da sua soberania e depositando as suas confianças e problemas num “Estado” superior, que acaba por estar acima de todos os Estados integrantes, e controla as relações entre estes e é quem de facto vê a melhor forma de agir perante este ou aquele problema.

Porque é que eu estou a falar disto? Bom, se calhar porque para além de ter muita fé e confiança nesta instituição europeia, creio que para ultrapassarmos determinados obstáculos (como por exemplo é o caso das consequências que esta pandemia vai trazer sobre nós) precisamos é de cooperação e não de separação. A UE tem dado o seu melhor para na medida do possível estar ao nível das crescentes necessidades que têm aparecido com esta emergência, e creio que é o facto de fazermos parte de uma instituição tão interligada que tem permitido certas trocas e ajudas que os países têm tido entre si.

Não estamos perante uma guerra com armas, mas estamos perante um inimigo invisível e não podemos deixar que seja este inimigo que vai dar cabo desta estrutura. A UE é fulcral para a política internacional atual. Esqueçam-se os que apoiaram o Brexit como crítica à globalização e como forma de pressupor que os países perdem muita soberania por estarem assim ligados; são estas crises que cada vez mais nos provam a importância da estrutura e demonstram o quão enganados estão quem concorda que os países foram perdendo a sua soberania ao longo do tempo. Não! Pelo contrário, esta pandemia tem demonstrado isso ao máximo: alguns dos países que se encontram em pior estado neste momento, são aqueles que mais tempo demoraram a responder a esta crise, aqueles que perante conselhos superiores decidiram não fazer nada, pois era uma mais uma mera “gripe espanhola” ou “gripe das aves” e que iria passar como as outras passaram. Os governantes dos Estados tiveram a independência suficiente para decidir qual era o momento certo (ou em muitos casos errado) para responder a esta crise. Não é soberania isto? Não é independência estatal para dentro do seu território nacional, agirem como melhor acham?

A culpa, a verdadeira culpa, essa sim reside não na UE mas sim nos indivíduos que todos os dias, mesmo com ordens superiores para não se sair à rua, continuam a sair; nos ministros que tiveram tardia resposta à  realidade que se aproximava, por não quererem fechar as escolas porque “não há motivos para nos preocuparmos”, porque “ainda não há casos suficientes para nos preocuparmos; nas pessoas que sabendo da crise que se aproximava, continuaram a viajar e a andar por aí como se nada fosse; está sim nas pessoas que estiveram em áreas infetadas ou com pessoas possivelmente infetadas e continuaram a interagir com outras como se houvesse a possibilidade de não ficarem também infetados. Para além de extrema irresponsabilidade, é extremo desrespeito para com os profissionais de saúde que mal vêm as suas famílias para poderem salvar outras; para com os ministros que mal dormem para poderem estar ao correntes da situação e para nos manterem informados; para com os militares e polícias que todos os dias deixam as suas famílias para rondar as ruas; para com todos os que já perderam alguém para esta peste horrenda, ou para quem tem algum familiar doente; para com todos nós no fundo.

Somos os Estados Unidos da Europa, e não podemos repetir os mesmos erros vezes e vezes sem conta. Se já passamos por outras crises, porque é que continuamos a ser irracionais e atribuir culpas ao calhas? Porque é que quando se começa a falar de que vamos ter que apertar os acessos aos supermercados, as pessoas correm que nem vacas locas para comprar tudo o que está nas prateleiras? Porque é que o ser humano demonstra sempre o seu pior quando está em situações de stress? Não podemos ser mais solidários? Não é isso que exigimos da UE? Solidariedade? Acho que devemos olhar para nós primeiro e depois pensar em quem é que pode levar com as culpas ou não.

Estamos a viver um período completamente novo, claro, em que somos obrigados a ter aulas através de ecrãs; em que as avaliações se baseiam em trabalhos; em que os trabalhos se baseiam em trabalho de secretária 8/12 horas por dia; em que as saídas de casa se baseiam em idas rápidas à mercearia; em que os nossos dias se baseiam em nuvens cinzentas à espera de um novo amanhã. Mas isso não é de forma nenhuma desculpa para atribuirmos culpas aos outros e não olharmos para os nossos atos.

Pare, escute e não saia de casa.