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O diabo chegou

Caros companheiros,
Vivemos tempos conturbados. Ninguém esperaria que um ser microscópico em forma de bola fosse afetar a sociedade em que vivemos de forma tão drástica. Parar a economia, impedir a livre circulação, abstermo-nos de afetos e contactos físicos, sermos impedidos de trabalhar. Tudo isto são consequências de um inimigo que temos de travar em conjunto.
As consequências do impacto que este vírus vai ter na economia são óbvias, embora ainda difíceis de quantificar, apesar de a universidade católica já ter previsto que iremos ter uma contração económica de 4% a 20% e o desemprego a poder chegar aos 14% . Não vi ainda ninguém assumir-se otimista em relação a esta crise, salvaguardando que mesmo dentro do otimismo possível, nunca se poderá dizer que não entraremos em recessão e que não teremos um crescimento negativo este ano. Sabemos que Portugal vai estar parado pelo menos um trimestre, mas sabemos também que essa paragem de pelo menos três meses vai significar mais do que uma redução de um quarto da atividade económica neste ano. As consequências desta crise adivinham-se devastadoras e temos de estar preparados para o pior. Temos de perceber que tem de ser encontrado um equilíbrio entre a sustentação da economia e a necessidade de isolamento e de suspensão das atividades, mas perceber também que este equilíbrio não invalida que devam ser definidas prioridades, que devem ser tratadas como tal. Neste momento a prioridade é conter a propagação do vírus e cuidar dos infetados. Mas também devo alertar que não é cedo para falar sobre como vamos ultrapassar a crise económica subjacente a esta pandemia.
Em primeiro lugar temos de perceber que esta crise não deve ser comparada de forma simples com a que ultrapassámos em 2008-2015. Ao contrário da crise anterior, esta tem origem na chamada economia real. Não derivou do mercado imobiliário, nem de problemas na banca, mas sim na quebra acentuada do consumo e da atividade económica. A suspensão da atividade de grande parte das empresas significa que não é gerada receita nem para pagar aos trabalhadores nem para contribuir fiscalmente.
Se formos analisar de forma muito simplista as consequências deste vírus na quebra da produção nacional, observamos que a única componente do PIB que está a ser alimentada, por via direta do erário público, são os gastos do estado. O PIB tem como componentes o consumo, o investimento, exportações, importações e os gastos de estado. Ora, aquilo que observamos da atividade económica atual, é que está a existir uma quebra acentuada tanto do consumo, como do investimento e também uma forte redução do comércio externo (salvaguardando que não deveremos esperar uma quebra muito acentuada das importações, tendo em conta que não somos autossuficientes, estamos muito dependentes do exterior no que respeita a bens alimentícios). Não nos podemos esquecer que as poucas grandes indústrias que temos, como a caso da Autoeuropa (que vale sozinha 2% do PIB!) estão paradas, bem como o turismo, que vale cerca de 10% na nossa produção económica tratando-se, portanto, de uma grande quebra.
A questão agora será: o que podemos fazer para ultrapassar esta crise económica?
Neste momento temos de ser o mais objetivos possível. Não nos podemos dar ao luxo de criar discursos apaixonados subjacentes a ideologias ou doutrinas mais ou menos radicais. Este problema requer racionalidade, no sentido mais puro da palavra. A sua resolução não passa nem por incentivos fiscais nem por subsídios à produção. Não há nada para incentivar, porque não há produção, nem se pode produzir porque não há trabalhadores disponíveis para o fazer. Neste momento o que é importante garantir é a liquidez das empresas. Se costumo dizer que o Estado se mete em tudo menos no que realmente importa, também devo dizer que é isto que realmente importa: garantir que as empresas têm liquidez suficiente para pagar os salários aos trabalhadores e não entrarem em insolvência.
O governo tem vindo a apresentar algumas medidas económicas de apoio às famílias e às empresas, e apesar de me parecer óbvio que as medias apresentadas são insuficientes, parece-me também claro que isto é só o começo de uma longa luta. As medidas que o governo tem apresentado são medidas importantes, de curto prazo (e nós sabemos que para o PS é fácil governar para o curto prazo), que visam resolver os problemas de tesouraria das empresas e das famílias, mas temos de começar já a preparar o futuro. Este cenário de emergência necessita obviamente de ter um enquadramento Europeu. A União europeia tem aqui um teste difícil e até diria decisivo para si mesma, para a continuidade deste projeto europeu. Nenhum país europeu, mas principalmente nenhum dos países do sul da Europa, consegue lidar com este problema sem a ajuda da União Europeia, que irá ter um papel fundamental, espero, no apoio das diferentes nações, papel esse, que desejo que seja mais robusto e mais ativo do que o que tem sido com Itália, que foi praticamente abandonada à sua sorte.
Tal como disse o José Gomes Ferreira no seu programa habitual na SIC, “O diabo veio por um caminho que ninguém imaginava”. Esta é a verdade. Reconheço que não é tempo de fazer grande oposição nem de combate político, mas se há coisa que nós não podemos nunca perder, muito menos numa crise, é o espírito crítico e a liberdade de discordar. Se nestes últimos 4 anos o governo tivesse adotado uma verdadeira política de incentivo às empresas e de fomento da economia, se tivessem sido feitas as grandes reformas necessárias ao desenvolvimento deste país, provavelmente as empresas estariam numa posição mais sustentável para fazer face a esta problemática.
Por fim, deixo uma última nota que considero importante, até do ponto de vista académico, ser feita. A existência de muitas pessoas a trabalhar à distância, como é o caso de professores, consultores, e outras profissões do setor público e privado, pode e deve ser alvo de investigação depois desta crise estar ultrapassada. De que forma o trabalho à distância contribui ou não para a produtividade? Qual o seu valor em termos de produção e de que forma pode ser avaliado e calculado? Penso que seria importante fazer o estudo desta forma de trabalho que praticamente nos foi imposta, mas que pode ser mais importante e valiosa do que nós provavelmente imaginamos.
Assim termino. Desejo a todos muita força, coragem e cuidado. Mantenham a distância social e sigam as recomendações da DGS. A prevenção é a nossa maior arma. Fiquem em casa.
Comprem produtos Portugueses.
André Monteiro Pires.
Revisão científica por Prof. João Carlos Correia Leitão