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A formação cívica e política nos jovens

O tema da ligação entre os jovens e a política está cada vez mais na ordem do dia, e a realidade é que esta ligação está cada vez mais fraca. Hoje em dia, cerca de 57% dos jovens não querem saber de política, avança um estudo patrocinado pela Presidência da República, em 2015. “Para as Eleições Europeias, 28 milhões de jovens, entre os 18 e os 22 anos, puderam votar pela primeira vez (…) e apenas cerca de 7% desses novos eleitores se dirigiram às urnas” diz o Jornal I.

Este é um problema bastante sério e que merece a máxima atenção, afinal, os jovens de hoje são os adultos de amanhã; são estes jovens que daqui a 10, 20 e 30 anos vão gerir o nosso país. Não nos podemos conformar com o facto de que os jovens não queiram, simplesmente, saber de algo que influencia de forma tão radical o seu futuro e das gerações futuras.

Mas tão importante como perceber este afastamento é perceber o porquê do mesmo. O investigador de ciência política, António Costa Pinto, aponta para o seguinte facto: “já nasceram em democracia e não sentem nenhuma preocupação particular em relação a mesma”. Já José Ribeiro e Castro, antigo líder do CDS, diz crer que é o grande artificialismo na intervenção política que afasta os jovens e que estes sentem que o seu voto não faz a diferença. No caso do deputado do PSD e antigo líder da JSD, Duarte Marques, este defende que o descontentamento dos jovens liga-se com o facto de serem “os principais prejudicados do rumo que o país tem levado” e por estarem insatisfeitos com o sistema não toleraram mais erros. Hugo Ferrinho Lopes, presidente da JSD Distrital de Castelo Branco e licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade da Beira Interior e mestre em Ciência Política pelo ISCTE-IUL, aponta para o facto de “hoje estar na política ser, muitas vezes, mais cadastro do que currículo”.

Perante tudo isto as questões que se colocam são: “O que fazer para tornar a política e a vida cívica ativa mais atrativa aos olhos do jovens?” e “Quem pode/deve ter um papel mais importante na alteração deste problema?”. Na minha opinião, é urgente tornar a atividade política e cívica mais atrativa para os jovens antes que seja tarde demais e que tenhamos que nos confrontar com problemas graves.

Segundo Salvador Varges, comentador político no jornal o observador, “precisamos de garantir que os jovens têm esperanças e que acreditam que só se forem uma parte ativa da sociedade serão uma verdadeira esperança em Portugal”; este afirma também serem grandes trunfos de consciencialização política as famílias, as escolas, os partidos políticos e o governo.

Já José Ribeiro e Castro defende uma perspetiva relativamente mais “radical” em que a única solução passa por reformular o sistema político. Posto isto, considero que existem cinco principais responsáveis pela formação cívica e política dos mais jovens.

Em primeiro lugar, as escolas. Os estudantes portugueses passam cerca de 5460 horas (durante o 1º ciclo do ensino básico) e cerca de 8214 horas (durante o 2º ciclo do ensino básico) na escola, o que lhes atribui uma grande responsabilidade na sua educação e formação. É também na escola que os jovens mais socializam, sendo este um espaço possível de incentivar algum debate entre alunos e entre professores e alunos. Nos últimos 10/15 anos os governos portugueses têm vindo a fazer alterações no sistema de ensino, nomeadamente, a introdução da disciplina de ciências políticas no 12º ano, como disciplina, anual e da disciplina de cidadania. Relativamente a disciplina de ciências políticas, do 12º ano, no ano letivo de 2010/11 esta disciplina foi lecionada em 27 escolas e em 2016/17 em 10 escolas. Esta disciplina seria uma boa forma de instruir estes jovens. No entanto, o seu caráter opcional faz com que os alunos que a escolhem já tenham, à partida, alguma aproximação à política e à intervenção cívica. Outro problema desta disciplina é o facto dos conteúdos programáticos serem demasiado teóricos (o que transmite aos alunos a ideia de que a política é algo complicado e difícil de perceber) e que incentivam pouco os alunos a pesquisar informação mais atual e sobre o que acontece na política mundial, nacional e local. Relativamente a disciplina de cidadania, este foi um projeto-piloto introduzido, em 2017, em 235 escolas com autonomia e flexibilidade curricular do país e aplicada alunos do 1º, 5º, 7º e 10º anos do ensino básico e secundário. Esta iniciativa seria de bastante valor se tivesse um “guia” de conteúdos programáticos. Só que como não tem, este tempo letivo acaba por ser canalizado e utilizado para fins que nada dizem esta disciplina. Outro problema deste projeto-piloto é o facto de não ter uma avaliação e uma continuidade interanual, acabando por ser desvalorizada por alunos, pais e professores.

De facto, têm sido tomadas algumas medidas de formação cívica e política do jovens nas escolas, não obstante tem que ser feito um esforço a implementar mais e melhores medidas de forma mais eficaz. Salvador Varges defende que “os estabelecimentos de ensino podem e devem incentivar o debate de ideias e ideologias, sobre temas que quebrem as barreiras e liguem a atualidade aos jovens”.Um excelente exemplo de uma medida que incentiva o jovens a ligarem-se a política e a intervenção cívica é o projeto Parlamento dos jovens que tem como objetivos simular o funcionamento da Assembleia da República Portuguesa e mostrar aos jovens que a política não é “aquela coisa chata”  que eles pensam que é.

Em segundo lugar, em casa. Os pais e os familiares têm um papel muito importante na formação política e cívica dos jovens. Cabe a estes incentivarem a participação (por exemplo em projetos de eleições que ocorram na escola e em atividades extra curriculares), o debate (de temas atuais que obriguem os jovens a desenvolver o seu espírito crítico e as suas capacidades argumentativas), transmitir valores (como o do respeito pelo próximo, pela pátria, pela democracia e pelo ato eleitoral) e mostrar a importância da representação, da luta pelos direitos e do cumprimento dos deveres. Na realidade, o que acontece muitas vezes, é que os pais e familiares, eles próprios desacreditados na política portuguesa e dos políticos portugueses, tentam que os jovens se afastem da política dizendo que “isso só traz problemas”. Este “preconceito” tem que ser alterado e isso passa também por mudar a mentalidade dos mais velhos, que influenciados pelos mais jovens podem vir a depositar neles toda a esperança.

Em terceiro lugar, os partidos políticos e a juventudes partidárias. Neste caso estes devem fazer um esforço para que as suas bandeiras sejam mais direcionadas para os problemas que os jovens sentem e com os quais mais se identificam, principalmente no caso de juventudes partidárias. Salvador Varges afirma que os partidos políticos devem criar programas específicos para fomentar o interesse massivo dos jovens e a sua clara compreensão dos seus princípios. Já Marcelo Rebelo de Sousa, atual Presidente da República Portuguesa, disse na Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude, em 2019, que “os responsáveis políticos tem que pensar o que é que está errado na forma de funcionamento dos partidos, na forma de funcionamento dos parceiros económicos e sociais, na forma de funcionamento dos sistemas, para o jovens não perceberem, não se sentirem motivados, não se sentirem empenhados e não terem um sentido de pertença”.

No fundo são as juventudes partidárias as melhores representantes dos jovens no sistema político português; são elas que tem a responsabilidade de formar e incentivar os jovens para política e de fazer política “pela positiva” e de forma séria e honesta. É isto que os jovens procuram na política, uma mudança, uma forma diferente e mais correta de fazer as coisas.

Em quarto lugar, as associações juvenis. O associativismo é outro tema também cada vez mais falado. Muito jovens, atualmente, fazem parte de associações juvenis. São estas associações que também têm um grande papel na sua formação política e cívica.  Estas devem explicar aos jovens como funcionam interna e externamente, explicando desde o funcionamento administrativo e burocrático até as suas fontes de financiamento.

Em quinto lugar, os media também têm uma grande responsabilidade quando se trata deste tema. Tendo em conta que os jovens passam muito tempo a ver televisão e nas redes sociais, estes podem ser um caminho de fácil acesso até eles. Tal como defende Salvador Varges “seria ideal termos um movimento massivo que, utilizando os canais atuais de interesse dos jovens, fomentassem a divulgação cultural e a consciencialização social”. Esta divulgação poderia ser feita através de programas e concursos que “prendessem” os jovens e ao mesmo tempo ajudassem na sua formação política e cívica, mostrando a importância da democracia e dos seus valores básicos.

E por último, mas não menos importante, outro órgão com um papel fundamental é o governo. Este tem um papel de criar incentivos nas várias áreas que a ele dizem respeito e de tornar o sistema político e atividade política mais atrativa. Um exemplo de uma medida que tornaria o ato eleitoral mais atrativo era a de implementação do voto eletrônico, como defende Duarte Marques quando afirma que “um jovem mais depressa vota on-line ou através de um sistema digital do que vai a uma urna”. O programa Parlamento dos jovens, já antes mencionado, é um bom exemplo de um projeto criado pelo governo e pela Assembleia da República, não obstante, “o governo poderia criar mais programas para incentivar a difusão do trabalho político e a necessidade da sua existência”, diz Salvador Varges no artigo de opinião no jornal o observador.

Em suma, hoje os jovens estão mais afastados da política e da intervenção cívica e amanhã o nosso país poderá estar “em perigo “É urgente tomar medidas. As escolas, as famílias, os partidos políticos e juventudes partidárias, as associações juvenis, os media e os governos têm um papel importante. Os jovens portugueses precisam de ser formados e incentivados. Precisam que lhes sejam passados valores de respeito pela democracia, pela pátria e pelo ato eleitoral.

“Segundo o Parlamento Europeu (…) a idade média do eurodeputado ronda os 55 anos” e “tendo em conta que os mais novos são geralmente um dos maiores beneficiados das medidas da União Europeia é com estranheza que, muitas vezes, a opinião pública vê a sua falta de participação nos atos eleitorais”, diz o jornal I. Isto é grave e significa que os jovens não se interessam pelos problemas europeus, tal como não se interessam pelos problemas nacionais e locais. A cada dia que passa este problema vai sendo maior e mais difícil de resolver. Medidas sérias que realmente tragam resultados precisam de ser implementadas, rapidamente!

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