Blog

Tudo faremos para que morra em paz mas também, para que viva até morrer

Encontrei a minha definição preferida de Política com o Papa Francisco, quando nos diz que a “política é a forma mais alta de serviço e caridade em prol do bem comum”. Sublinho: o Bem Comum. Ou seja, a concepção de uma sociedade em que o bem de todos é o bem do próprio, em que o bem da comunidade é o bem de cada um dos seus indivíduos.

Acredito numa sociedade que, em cada fase da Vida (de todos), cria condições para a dignidade de cada um. Desde a concepção até à morte. Uma sociedade que diz, mesmo nos momentos de maior fragilidade: sim, ainda há muito a fazer.

E assumir isto é uma decisão política.

“Sim, ainda há muito a fazer”. Será que a nossa sociedade dá esta resposta a quem está no fim de vida?

A Associação Europeia de Cuidados Paliativos recomenda que para cada 100.000 habitantes tenhamos 80 a 100 camas de Cuidados Paliativos. Fazendo as contas, Portugal deveria ter cerca de 800-1000 camas. No entanto, o Plano Estratégico para o Desenvolvimento dos Cuidados Paliativos 2017-2018, colocou como objetivo 492 camas. Se o objetivo é em si, como se entende, pouco ambicioso, a sua concretização ainda assim, foi falhada. Portugal tem, hoje, apenas 397 camas de Cuidados Paliativos.

O mesmo se verifica nas Equipas Comunitárias de Suporte em Cuidados Paliativos. Se em Julho de 2016 existiam 14 equipas comunitárias em Portugal, tendo sido colocado o objetivo do biénio 2017-2018 alcançar as 100 equipas comunitárias, hoje sabemos que temos 19 equipas em funcionamento. E destas equipas, quantas dão resposta efectiva e eficaz às reais necessidades dos nossos doentes? É fácil perceber: não se é doente apenas das 9h às 17h de segunda a sexta-feira.

Afinal, que tipo de sociedade é que queremos?

E não. Este não é um assunto alheio aos jovens. Não pode ser. Nós, os jovens, temos a responsabilidade de construir o tipo de sociedade com que sonhamos. Mas todos iremos viver a fragilidade humana na primeira pessoa – quer na qualidade de cuidador quer na qualidade de doente, por vezes até mais precocemente do que o podemos imaginar. O fim de vida dá-se, tantas vezes, quando ainda nos sentimos imortais.

Para o atual governo, a dignidade do fim de Vida não é uma prioridade. Questiono-me se podemos, portanto, dizer que a Vida em si é sequer uma prioridade para o governo. Olhamos para o estado do Sistema Nacional de Saúde e os sinais são claros: estamos em colapso. Quem sofre? Os doentes. Um Sistema Nacional de Saúde que vive no limite, focado no “apaga fogos”, centrado nas unidades de agudos/doentes descompensados, com serviços de urgência inundados, atrasos incomportáveis nas cirurgias de doentes oncológicos, e anos de espera para uma primeira consulta hospitalar…  

Repito: afinal, que tipo de sociedade é que queremos?

Como cidadã – e por isso, agente político como qualquer um deve ser – mas também como médica, respondo com uma frase de Cicely Saunders, uma mulher particularmente inspiradora da história:

Ao cuidar de si no momento final da sua vida, quero que sinta que importa pelo facto de você ser você, que me importo até ao último momento da sua vida, e que tudo faremos para que morra em paz mas também, para que viva até morrer”.

Quero uma sociedade que cuide de cada um, como parte de um todo, desde a sua concepção até ao fim da Vida – desde a infância, adolescência, idade adulta, velhice e até à morte. Porque até à morte, temos Vida.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *