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O Empreendedorismo está na moda?

Ao longo dos últimos anos fui  palestrante em algumas conferências sobre empreendedorismo, tecnologia e startups. Nessas conferências no momento das perguntas do público havia sempre alguém que afirmava que o empreendedorismo era uma moda. Nunca compreendi esta afirmação pois tinha sempre uma carga negativa, ou seja, a afirmação visava que o crescimento do número de empresas criadas (startups) era apenas e só derivado de uma tendência e porque ficava bem. Nunca concordei com esta afirmação e tentei sempre expor a minha visão sobre este tema.

O empreendedorismo nos anos 80 e 90 era muito difícil de iniciar, não existiam as condições que actualmente governos, investidores e grandes empresas criam. As empresas que nasceram nestes anos tem todas a mesma base, começaram numa garagem, no escritório de casa de alguém e tinham um suporte familiar (genericamente falando, há como em tudo excepções). Os negócios destes tempos eram também mais industriais, menos apoiados em serviços. Nos anos 90 com o evoluir da internet e tecnologia surgiam empresas tecnológicas, mas sobretudo apoiadas por grandes empresas e em países em que a evolução tecnológica era uma realidade muito mais avançada do que nos resto do mundo, maioritariamente nos EUA.

Em pleno século 21 e falando mais nos últimos 10 anos com a internet a dominar as nossas vidas, o apoio ao empreendedorismo deixou de ser uma filantropia para ser um negócio. Sim, um negócio. Quando me dizem que o empreendedorismo está na moda e que se deixou de falar em empresa para utilizar o termo startup, eu dizia sempre que era uma realidade da (r)evolução tecnológica. O tempo média de sobrevivência de uma startup é hoje muito menor do que era nos anos 80 e 90. Nestes anos, havia tempo para tudo e para estar vários anos a lançar produtos e crescer. Hoje em muitos casos o objectivo é crescer e depois perceber como se ganha dinheiro. Mudou o paradigma.

O empreendedorimo é um negócio, como afirmei, pois quem cria uma empresa hoje ela tem de ter uma base tecnológica. A tecnologia avança muito rapidamente e evolui numa velocidade estonteante pelo que um empreendedor hoje necessita de apoio no seu início. O primeiro objectivo é desenvolver o projecto piloto e ter um produto funcional e mínimo que permita mostrar o seu conceito. As empresas precisam de ter uma equipa, investir em alguns recursos humanos e sobretudo serem apoiados e formados na gestão de uma empresa de crescimento rápido e que terá sempre que ter no mínimo um continente como primeiro mercado (iniciando em algum mercado específico, mas tem de estar preparados para rapidamente colocar o produto em muitos mercados).

O apoio ás startups é hoje influenciado por grandes empresas, que tem estruturas mais abertas à inovação e que acolhem ideias que possam ser utilizadas por eles na sua operação. Mas não só acolhem, como financiam, tornam-se sócios e abrem também a oportunidade a outros investidores. Este modelo deu origem a estruturas privadas em que o negócio é apoiar startups e fazer um trabalho de triagem que permita fornecer ás empresas as melhores tecnologias. Esses organismos que se denominam aceleradores de startups, formam, apoiam, encontram equipas e sobretudo aproximam as startups das grandes empresas e investidores. Estes pagam para se envolverem nestes programas, são parceiros para terem acesso mais rápido ás tecnologias. Existem programas por esse mundo fora que em pouco tempo originam oportunidades de negócio e investimento. Se as startups tentarem pelo seu próprio rumo, demoram anos a conseguir as mesmas oportunidades.

Portanto o empreededorismo é tão somente uma oportunidade para o desemprego, para aqueles que depois de terem experiência profissional numa área, aventuram-se num negócio e criam o seu próprio emprego. Não é uma moda. Dificilmente uma empresa de base tecnológica tem capacidade de evoluir e estabelecer-se no seu mercado sem ter apoios em formação, investimento e as parcerias certas. Há casos de startups que conseguiram criar um negócio e iniciar a sua venda pelos seus próprios meios. São a minoria, mas existem. No entanto chega o ponto em que tem de crescer rapidamente (pois a concorrência no sector tecnológico é feroz) e aí na grande maioria dos casos o negócio em si não consegue financiar o crescimento.

Hoje, é muito mais simples abrir um negócio, desde que se tenha uma ideia e se acredite nela. Existindo esta motivação, necessitamos de validação e recorremos ao mercado através de parcerias para testar o nosso produto com alguma empresa reconhecida. Após esse reconhecimento temos matéria para procurar conhecimento, parcerias e investimento que permite executar a nossa estratégia. As empresas do sector tecnológico rapidamente crescem exponencialmente e multiplicam as oportunidades de emprego e criam necessidades no consumidor.

Se considerarmos que as modas são lançadas para vender mais e melhor, então o empreendedorismo pode ser uma moda. Uma moda alicerçada na evolução tecnológica e na necessidade de se criarem condições para o crescimento dos negócios e da geração de emprego. Uma moda positiva, que tenta diminuir a percentagem de startups que falha (cerca de 90%). Uma moda que permite a muitos atingirem o seu sonho e que de outra forma não conseguiriam. O empreendedorismo não é romântico, nem é propriamente o que parece nas fotografias das empresas nas redes sociais. É tão somente um caminho com muitos altos e baixos onde só os mais resistentes, flexíveis e os capazes de mudar o rumo a qualquer momento conseguem chegar ao fim. E aí sim, o fim com sucesso é que deveria ser cada vez mais uma moda.

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