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O ENSINO SUPERIOR E O MERCADO DE TRABALHO*

Sou estudante do ensino superior há 6 anos e, embora não o tenha sentido diretamente, as transformações que aqui têm ocorrido são inegáveis. Ainda durante os últimos anos do Estado Novo, foi iniciado o processo de expansão, institucional e territorial, assim como a diversificação e complexificação do modelo de organização. Mais recentemente, as instituições de ensino superior portuguesas têm integrado alterações políticas de ensino e estruturais, reformulando e reorganizando objetivos, finalidades e práticas, impulsionadas, em parte, pela Declaração de Bolonha e outras. Atualmente, e de acordo com a legislação portuguesa em vigor, estas instituições de ensino têm por objetivo, entre outros igualmente relevantes, a qualificação de alto nível dos seus estudantes, a produção e difusão do conhecimento e a formação cultural, incumbindo também às instituições de ensino superior apoiar a inserção dos seus diplomados no mundo do trabalho.

Perante o seu importante papel e sua exigente missão em lançar os jovens, dotados dos mais recentes conhecimentos, no mercado de trabalho, conhecer o êxito das instituições de ensino superior, na persecução desse intuito, revela-se uma tarefa necessária.

Neste sentido, e a título de exemplo, proponho uma reflexão: se por um lado a taxa de natalidade bruta em Portugal tem vindo a decrescer ao longo dos anos, por outro o número de vagas de acesso à Licenciatura em Educação Básica tem-se mantido relativamente constante. Assim, mantém-se constante o número de Educadores de infância e Professores do 1º ciclo para um número decrescente de alunos. Além disso, a Direção-Geral da Educação está a promover um projeto para “Iniciação à Programação no 1.º Ciclo do Ensino Básico” com o intuito de desenvolver capacidades associadas ao pensamento computacional e à literacia digital, no entanto, o plano curricular dos cerca de 670 estudantes que iniciaram a Licenciatura em Educação Básica, no ano de 2017, mantém-se inalterado, sem unidades curriculares que reforcem o domínio da computação, como é exigido para que o projeto proposto tenha sucesso.

Assim sendo, neste momento, as instituições de ensino superior – que gozam de autonomia pedagógica, com capacidade para elaborar planos de estudo e definir o objeto das unidades curriculares – fracassam no apoio à inserção dos seus diplomados no mundo do trabalho, quer no que diz respeito ao número de diplomados, em excesso para as necessidades futuras, quer relativamente aos conteúdos e conhecimentos transmitidos aos seus estudantes.

Perante o exemplo citado, a sugestão, relativamente à licenciatura em Educação Básica, é que se faça uma avaliação geral do curso: apreciação do plano curricular, do número de vagas e da sua distribuição. À semelhança do que acontece com outras licenciaturas, reduzindo o seu número e reestruturando os 2 planos curriculares das remanescentes, com alocação de recursos humanos e materiais mais eficiente, resultará em benefícios tanto para os estudantes e futuros diplomados como para a população geral.

O estudo das necessidades futuras do mercado de trabalho, e consequentemente da população, deverá ser a base para a estruturação da oferta formativa ao nível do ensino superior. A criação de uma comissão de trabalho capaz de estudar a rede de ensino superior, a sua oferta formativa e as carências da sociedade, parece-me uma estratégia válida para que as instituições de ensino superior consigam atingir o seu objetivo de apoiar a inserção dos seus diplomados no mundo do trabalho.

*Este artigo resulta de uma revisão e reformulação, para um pendor opinativo mais pessoal, da proposta de Moção apresentada no Fórum Pré-ENDA da Associação Académica da UBI e aprovada por unanimidade.

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