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As questões do nosso tempo

Não há época da, ainda curta, história da humanidade que não tenha tido as suas questões mais pertinentes e incertezas, na verdade, o presente é ele mesmo repleto de muitas incertezas e poucas certezas, pelo menos até chegada do futuro, que então se torna ele mesmo no presente e inundado de incertezas quanto ao novo futuro. As incertezas são isso mesmo, a areia movediça pela qual se move o presente até à chegada do futuro, são também a estrutra lógica do presente e sem elas o futuro não faria sentido. Logo, achar que o nosso tempo, o presente de hoje, é ele recheado de mais incertezas do que os tempos dos outros, logo os tempos passados – é, naturalmente, uma falácia do próprio tempo. Facto este último, não muito diferente do frequente “achismo” de que o nosso tempo é pior do que o tempo que nos antecedeu, o fenómeno em si acarreta particulares dimensões do “saudosismo”, de saudade e de uma sensação de que o tempo passado parece sempre mais feliz do que o futuro.

O mundo de hoje é ele também circunstância destes estranhos fenómenos que tanto preocupam filósofos, escritores e a inteligência de demais literatos. A excepção, curiosamente, poderá ser encontrada nos finais dos anos 80, em plena queda do muro de Berlim, a dissolução da velha URSS e o aparecimento de novos Estados a Leste. Nessa linha temporal houve quem decretasse que havíamos chegado ao fim da história, Francis Fukuyama, produto da Ivy League norte-americana foi um dos muitos que achou que se havia chegado ao fim da história e que o homus democroticus seria o último homem. Enganou-se e a realidade tirou o tapete a muitos académicos e políticos que depois dos grandes acontecimentos dos finais da década de 80 entenderam que se havia chegado ao estado em que o capitalismo e democracia liberal seriam marcas de água indexadas a uma globalização resplandecente e inquestionável. Os finais dos anos 90, o 11 de setembro e mais tarde a crise do subprime de 2008 encarregou-se de deixar claro que a história não tem fim, e as incertezas são irrepreensivelmente a marca do presente. A excepção confirma a regra, e em pleno ano de 2018 as incertezas quanto aos novos jogos geopolíticos no Médio Oriente, a reconfiguração das relações de poder com a China e o respectivo sudeste asiático, com a Índia a catapultar-se para a cena internacional a velocidade cruzeiro, e também a península da Coreia a marcar a agenda política internacional, fazem-se sentir a cada dia, das páginas de jornais ao comentário político passando ainda pela produção científica que sai da academia, deixa que se vislumbre um presente prestes a passar à fase da perplexidade, ultrapassando o nível da complexidade. A perplexidade, como Adriano Moreira tão bem nos explicou, define um tempo do xadrez internacional e das relações internacionais que já não são marcadas pela complexidade dos processos e dos fenómenos, mas sim pela imprevisíbilidade com que as circunstâncias são modificadas.

Os novos desenvolvimentos na península da Coreia, em especial, o reatar de relações por parte da Coreia do Norte com o resto mundo, nomeadamente com os EUA e a Coreia do Sul, personas non gratas para o regime de Kim Il-Sung, são sintomáticos deste estado de perplexidade a que chegámos. Nada fazia prever que viéssemos a assistir ao momento histórico, os rostos políticos da Coreia do Norte e do Sul surgem lado a lado em fotografias, conferências e apertos de mão – meses antes declaravam guerra entre si e Kim ameaçava o mundo de que os seus rockets e bombas causariam dor e sofrimento a muita gente – ao mesmo tempo, iluminados lançavam para a imprensa a possibilidade de Trump vir a ganhar um Nobel da Paz pelos “feitos” junto dos Estados irmãos que andavam oficialmente em guerra há quase 50 anos. Coitados, nem se terão dado ao trabalho de perceber que quem mantinha a Coreia do Norte viva e ainda capaz de vociferar palavras de ordem era a China, esse grande dragão da economia mundial, e não os EUA impotentes a obrigar a Coreia do Norte a qualquer coisa. O actor central aqui é a China, que reuniu com o ‘gorduchito’ que governa a Coreia do Norte desde da morte do seu pai e lhe impôs condições de sobrevivência. Ou morria às mãos da fome e da miséria a que estavam condenados há vários anos ou se adaptavam e abriam ao mundo. Xi, o novo senhor da China, não é tolo e sabe que para governar o mundo é preciso que haja mundo e gente para ser governada. Isso, ou o bater com a porta de Xi J. terá levado Kim a tentar sobreviver abrindo-se ao Ocidente e terminando o seu todo poderoso programa nuclear. Trump, a quem ainda muitos prestam vénias, não vale a ponta de um chavelho na negociação diplomática, reflexo disso é o romper do Acordo Nuclear com o Irão (deixando a Europa abandonada e só, onde nem Macron, nem Merkel sabem que cartas atirar para o jogo), a deslocação da embaixada norte-americana de Tel-Aviv (a capital oficial e legítima de Israel) para Jerusalém (a não capital de Israel e que o Primeiros-ministro israelita e o seu grupo gostassem que fosse a capital do Estado Israelita) e ainda o escalar de tensões com os Russos, por algo que aconteceu no Reino Unido e que para todos os efeitos não se sabe se foi ou não culpa do governo russo. A suspeita no caso do espião russo que foi envenenado com substância radioativa é legítima, e a história assim o comprova, no entanto atirar mais lenha para uma fogueira que já arde há demasiado tempo não ajuda em nada e certamente a propaganda se encarregará de alimentar a chama das relações EUA-Rússia.

O mundo não se tornou num lugar perigoso, mas nunca chegou a ser seguro. Certamente que os perigos são, pelo menos, mais sofisticados e a carecer de mais atenção, mas o tempo de hoje é também ele produto da nossa irredutível capacidade de através do presente olhar o futuro sem nunca esquecer o passado. O presente é ele semelhante, na sua forma e orgânica, ao passado, tal como o futuro o será, e o que hoje se vive serão apenas breves passagens numa cronologia temporal que não para de crescer. Todos os tempos tiveram as suas grandes questões, as nossas são estas, às quais se juntam outras tantas, tais como que caminhos para o Estado Social? Onde para a Social Democracia? Automatização e o desaparecimento de mais 30% dos empregos? Bom, tudo boas questões, que ficarão para outra oportunidade.

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