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Sr. Professor Pedro

Eis-me aqui com mais um texto sobre a polémica contratação de Pedro Passos Coelho como Professor Catedrático Convidado do ISCSP (com direito portanto ao título de “Professor por extenso”, como fiz questão de utilizar no título deste artigo). Mas quero ser muito claro quanto ao que venho: este texto será tanto sobre Passos Coelho como sensatas têm sido a maioria das intervenções nesta matéria, ou seja, muito poucochinho. O verdadeiro cerne desta questão ficou, a meu ver, por debater. A contratação de um ex-Primeiro Ministro para o Mundo académico português seria uma excelente oportunidade para se reflectir sobre a robustez e amplitude do Ensino Superior português. Pois bem, optou-se mais uma vez por fazer aquilo que mais vende, atacar individualmente o Primeiro-Ministro mais odiado da história dos media e comentadores profissionais (esta espécie de youtubers de fato e gravata) em Portugal. A questão é tão complexa e merecedora de uma reflexão verdadeiramente apartidária que seja a ser insultuoso a forma como este caso se tornou num Benfica-Sporting, a paixão acima da razão.

Passos Coelho é neste momento dois homens, o Homem político e o Homem científico (invade-me uma pequena ousadia, quase poética, de usar os termos Homo-Politicus e Homo-Scientificus). Sobre o primeiro, todos o conhecemos: antes de chegar a líder do partido foi dirigente da JSD, de seguida deputado e até finalmente arrebatar o PSD da linha conservadora de Manuela Ferreira-Leite (é bom não esquecer que Manuela Ferreira-Leite só recentemente descobriu a sua veia Centro-Esquerda enquanto comentadora, enquanto Ministra os seus actos falam por si). Pouco tempo depois viria a tornar-se Primeiro-Ministro e governaria durante um dos períodos mais complicados e conturbados da história do nosso país. Seguiu-se nova vitória nas eleições de 2015, uma estreia para um Primeiro-Ministro de um país intervencionado e também uma estreia nas virtudes do sistema parlamentar, já que se tornou o primeiro a ganhar umas eleições legislativas e a ver o parlamento negar-lhe a possibilidade de governar novamente. António Costa, bem tinha ensaiado esta possibilidade com o seu discurso à Convenção Nacional do PS em 2009, quando pela primeira vez as sondagens apontavam para uma “maioria negativa” entre PSD e CDS. É de facto um político de grande visão o nosso Primeiro-Ministro, já ali antecipava um governo formado por “jogos partidários”, palavras do próprio. Mas fatalmente, viria a ser um Primeiro-Ministro do PSD a sofrer este “volte-face”. Em relação a Passos Coelho são muitos aqueles que preferem guardar dele a sua perseverança e pragmatismo, mais ainda são aqueles que o vão sempre associar à falta de sensibilidade social como o Diabo feito Homem. Eu cá, lembrar-me-ei sempre dele como Homem que geriu o País antes de se gerir a ele próprio. Se bem ou mal, cá estarão os livros de História para um dia julgar.

Passemos então ao Passos Coelho científico. Ora bem, esse não existe nem nunca existirá. E portanto a contratação de Passos Coelho como Docente do ISCSP não pode ser nunca alheada da realidade de um país a braços com um problema de emprego científico gritante. Nunca nos podemos esquecer dos milhares que jovens doutorados que todos os dias se debatem contra um sistema que insiste em lhes retirar qualquer esperança de um futuro digno, contra uma FCT ditatorial e vergonhosa na sua actuação. Vários se irão aqueles que me dirão que os quatro anos que Passos governou sob as rédeas da Troika foram mais difíceis que qualquer doutoramento, e aí de facto terão de facto arrumado com a minha argumentação. Mas também convém lembrar que os papers que Passos publicou nesses quatro anos e que mais foram citados (muitos vezes junto a impropérios) foram os seus Orçamentos de Estado e a verdade é que esses têm muitos autores, portanto há que distribuir o mérito por muita gente, nem tendo bem a certeza se Pedro M. M. Passos Coelho surgiria como primeiro autor (o que à luz das regras douradas da FCT nem dá assim tantos pontos). Portanto, sim. Há de facto um lado negativo na contratação de Passos Coelho como Docente de uma Instituição Pública de Ensino Superior. Não podemos lutar todos os dias por melhores condições para a Ciência em Portugal e achar que esta situação é normal no contexto universitário português. Não o é, de todo. Para se entrar na carreira académica como Professor Auxiliar exigem hoje aos jovens doutores um currículo de Professor Associado, o que demonstra o quão difícil é hoje em dia sonhar como uma carreira após o doutoramento. Com a agravante no caso de Passos Coelho de que este terá um estatuto de Professor Catedrático. Ora, para se ser Catedrático é preciso ter bem a noção do que é a investigação, o que é fazer orientação de trabalhos científicos de alunos, o que é batalhar pelos injustos fundos competitivos. Ora, Passos Coelho não conheço nada disto. Mas insisto, este é um problema à luz da realidade actual do Ensino Superior e das Universidades em Portugal, o que me leva ao ponto seguinte do meu raciocínio.

Em Portugal, as Instituições de Ensino Superior não estão preparadas para a realidade de contarem nos seus quadros com personalidades distintas da nossa sociedade que não são fruto do sistema académico. E portanto aqui é fundamental olhar de forma profunda para aquilo que é a dicotomia Ensino-Investigação nas nossas Universidades e Politécnicos. Todos estamos exclusivamente preocupados com a Investigação, com o engrossar da lista de publicações e de projectos financiados internacionalmente. Os alunos são autênticas máquinas de produção de textos, qual alusão ao Teorema do macaco infinito (não poderia neste momento deixar escapar um sorriso por, como homem matemático, ter podido finalmente utilizar a palavra Teorema num texto de carácter político). Ora, aquilo que insistimos em esquecer é o papel formador que as Universidades devem ter no seio da nossa sociedade. É urgente reabilitar o Ensino e o prestígio do Ensino Superior Português. É urgente colocar na ordem do dia o debate da melhoria daquilo que ensinamos na nossas Universidades. E para isso, precisamos que quem sabe possa ensinar, quebrar aqui com a horrível mentalidade de que “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. O que precisamos realmente é de fazer uma reforma séria que nos permita aproximar das universidades ditas de Ensino, tão comuns na Inglaterra e nos Estados Unidos da América. E é aqui que a contratação de Pedro Passos Coelho tem a sua grande virtude, a de poder proporcionar a centenas de jovens aprenderem com quem tem uma experiência que nenhum doutoramento poderá conferir. No fundo, não haverá mais aproximação à sociedade civil que trazer para as nossas Universidades aqueles que souberam encontrar na vida as vivências que os bancos das Faculdades não podem transmitir. Mais ainda, o que seria perfeito era ter Pedro Passos Coelho a leccionar em sessões abertas, aulas a que qualquer cidadão pudesse assistir sem estar sujeito à pesadíssima soma de uma propina académica. Hipotético e impossível? Pois em Paris, bem no coração do distinto Cinquième Arrondissement, na histórica Rue des Écoles e ladeada pelo Panteão Nacional, encontra-se a mais prestigiada Instituição de Ensino Superior da França. O Collège de France, fundado em 1530, é uma instituição que não confere qualquer grau académico, em que os Docentes dão aulas abertas a qualquer cidadão com vontade de aprender. Pois pasme-se quem achar que isso conduziria inevitavelmente à mediocridade do Ensino e da Investigação. A verdade é que o Collège de France é considerada a “crème de la crème” do sistema Universitário Francês, onde só as mais reconhecidos indíviduos das respectivas áreas são seleccionadas como Docentes.

Em suma, a discussão da contratação de Passos Coelho como Docente do ISCSP vai muito para lá daquilo que se debatido e escrito nos jornais. Perdeu-se uma oportunidade única de, através de um exemplo concreto, se debater seriamente um Ensino Superior Português evoluído e verdadeiramente ao serviço da sua sociedade. A grande verdade é que analisar toda esta situação à luz do actual sistema Universitário em que estamos mergulhados não nos pode levar a nenhuma conclusão. Estamos perante algo que contradiz os pressupostos retrógrados em que estão assentes o nosso Ensino Superior, o que nos deveria conduzir a uma reflexão profunda sobre o que devemos mudar urgentemente na nossa forma de ver a formação Superior. Em vez disso, preferimos fazer do debate um autêntico Benfica-Sporting científico-intelectual. Caríssimos, pois sejamos responsáveis e deixemos o confronto da Segunda Circular lá para o início de Maio quando as contas do campeonato estiverem ao rubro e, assim espero eu, perto de redundarem no número 5. Nesta bela arte que é fazer política e comentário político não deixemos que seja a paixão a falar mais alto que a razão. Que se deixem de lado as críticas à contratação de Pedro Passos Coelho apenas porque odiamos o Homem-Político, pois isso nada acrescenta. Convém nunca esquecer todos aqueles que muitos antes de Passos já eram Srs. Professores nas Universidades de Portugal. Interessante ver que, por exemplo, Ferro Rodrigues no ISCTE ou Mário Soares na Universidade de Coimbra nunca chocaram ninguém. Deixemos de lado as falsas regras e abaixo-assinados, ou expressões como “ofensa à dignidade”. O que é ofensivo é utilizarmos mais este caso para alimentar a guerra Esquerda-Direita que nada traz de interessante à nossa sociedade. Pois que sejamos capazes de tomar esta situação como uma oportunidade de repensar o papel social do Ensino Superior no nosso país, por um emprego científico justo e sério mas também por uma Universidade transversal e verdadeiramente próxima da sociedade civil. Só assim poderemos sonhar com algo parecido a um Collège de France no nosso país. Um “Collège du Portugal”, assim me leva a minha veia de emigrante a baptizá-lo.

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