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Pelo Tejo, Por Nós – uma carta aberta

Nosso querido Tejo,

Bem sei que agora estás na ordem do dia. Vieram as câmaras, os jornalistas e os repórteres, falar sobre aquilo que alguns, quase velhos do Restelo, já falavam quase há décadas. Os mesmos que eram quase ridicularizados, não obstante o caracter óbvio do problema que temos em mãos. Houve vídeos, muitos, alguns chegaram mesmo à comunicação social. Às televisões, rádios, jornais. E ninguém tomou medidas. Ninguém contínua a tomar.

Viajo ocasionalmente entre a minha Covilhã e a tua Lisboa, onde acaba esse teu percurso. Uma viagem terrível, não fossem os poucos quilómetros que percorremos, tão lentamente, junto a ti, nosso querido Tejo, naquela que é uma das linhas mais esquecidas do país (falaremos sobre isso noutra missiva). Mas esses demorados quilómetros de passagem pelo teu domínio, à tua margem, enchem o olho aos que por ali viajam. São quilómetros de arribas, encostas e escarpas, esculpidas por ti, cujo nosso caminho construímos de forma desafiante, para encurtar a distância, sem te ter pedido autorização. Nessa passagem pelas chamadas Portas de Rodão, a que temos a audácia de chamar “monumento natural”, sem que respeitemos o que isso implica, até o mais veterano utilizador desta linha olha para ti, sorridente, ainda sem suspeitar do que vem a jusante.

Não há explicação. Sei que o sabes, sei que te transtorna. Vejo as imagens e sei que deves chorar também. Eu também via a espuma naquelas viagens. Os outros também a deviam ver. Mas ninguém queria dar ouvidos aos tais velhos do Restelo. Também via o poderoso e imponente Tejo, que durante 816 quilómetros é Tajo, o maior rio da Península Ibérica e que em Portugal, após a barragem do Fratel, fica não raramente reduzido a não mais que uma ribeira. Bem sei, a culpa não é só dos portugueses. Mas, caramba, esta passividade não nos define. Apenas nos lembramos de ti quando as tuas já habitualmente escuras águas ficam cobertas de branca espuma ou quando lá de Espanha desviam o teu caudal. Sabemos que não era suposto ficares coberto de espuma. Ficamos preocupados ao ver-te assim. O ministro do ambiente também, mas hesita em atribuir responsabilidades, embora não falte quem atire culpas. Sei que é raro vê-lo por estas paragens. Só tenho pena que seja por tão triste motivo.

Sei que não podemos apontar dedos. Não nos fica bem. Também sabemos que não haverá só um culpado. Podem haver muitos nos tais 816 quilómetros espanhóis. Porém a atividade da indústria papeleira, do nosso lado, foi reduzida por ordem do governo durante dez dias. Uma ajuda, é certo, mas insuficiente. Não atribuímos responsabilidades claro, mas olhamos para os suspeitos de sempre. Insistem que não, o problema terá vindo de outro ponto. Mas que interessa Tejo? O problema continua aí, nas tuas águas, as mesmas que regam centenas de quilómetros por este país fora, as que até os animais se recusam a beber. Enviaram camiões pesados, bombas e equipas para limpar a espuma. “Olhos que não veem, coração que não sente”, não é verdade?

Mas hoje Tejo, 31 de janeiro, eis que se confirma: foi a indústria do papel a responsável pelo mais recente ataque a ti. Não sou eu que o digo, tranquilo, mas sim a Agência Portuguesa do Ambiente. Não, não se trata de recriminar os grandes grupos económicos. Não exijo encerramentos nem motins. Mas Tejo, aqui entre nós, sinto que o Estado devia cuidar mais de ti. No final de contas estaria, na realidade, a cuidar de todos nós.

Tudo de bom,

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