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Uma ação que nos une

O desemprego, o despovoamento, o envelhecimento, a baixa natalidade, a alta mortalidade, a hemorragia demográfica, a falta de infraestruturas, o parco acesso a serviços (ensino, saúde, justiça), o centralismo e o litoralismo…

Estas são algumas das preocupações transversais a todo o nosso Interior.

E são-no há muitos anos, há demasiados anos! Embora identificadas, e, sobejamente, estudadas e repensadas, em todas estas questões, em todo o Interior, há uma constante, uma persistente e repetida constante: a inação!

Estudo após estudo, unidade de missão após unidade de missão, governo após governo, embandeiramos a defesa do Interior e a promoção do seu desenvolvimento, da sua competitividade, da tão desejada coesão territorial, mas não passamos das intenções às ações. De um lado, o queixume espectável de quem se sente impotente para contrariar o fado, do outro lado a inação de quem pode fazer alguma coisa, mas desvaloriza o impacto daquilo que considera ser uma insignificante gota no oceano. E é neste ciclo de choradeira e intenções que o Interior, ou seja 2/3 do nosso país, tem sido visto e desdenhado nas ultimas décadas. Criam-se centenas de medidas, pensa-se em dar autonomia, ou choques fiscais, incentivos, subsídios, mas fica tudo no papel. O fim é sempre o do ganho mediático, de encher a boca com o verbo do Interior. Não houve, nem há intenção, clara e prática, de alterar o status quo nacional.

E sejamos pragmáticos, é entendível que um país concentrado, com 2/3 da população em 1/3 do território, olhe mais para essa população e esse território. É fácil de entender que essa concentração resulta em votos e poder, e que a governação tenda a autossustentar essa perpetuação, nem que isso signifique sacrificar ainda mais o Interior, desviando mais de 1000 milhões de euros de fundos comunitários (de convergência) do Interior para o litoral. Mas, não é entendível, nem aceitável, nem justificável este abandono e desconsideração por 2/3 do território e 1/3 da população, acentuando assimetrias e resignando Portugal a ser um país a 2 velocidades, comprometendo a coesão e unidade nacional. Num país em que a balança está demasiado desequilibrada, com o prato do Interior demasiado leve, a solução não é continuar a colocar pesos no prato do litoral. Para equilibrar uma balança desequilibrada precisamos de colocar pesos no prato, no prato do Interior. Colocar os pesos do investimento público, dos incentivos reais, do tratamento diferenciado, o peso da ação política. Da ação política e não da intenção!

Dois anos depois do Programa Nacional para a Coesão Territorial e da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, “Uma Agenda para o Interior”, 6 meses de períplo pelo país e quase 200 medidas apresentadas –– quanto do que se escreveu, propôs ou indicou se consubstanciou? Exatamente, “0”. Mais uma vez ficamos pelas intenções. O programa não passa disso mesmo, mais uma ação que não chega ser posta em prática. A missão impossível da Unidade de Missão demonstra-se cada vez mais impossível, contando com uma demissão por “falta de apoio político” e inoperacionalização das medidas. Mas, de “boas intenções está o inferno cheio” e o Interior continua agendado, num belo documento de intenções, mas de poucas ações.

E aqui chegados, voltamos ao início. De um lado um Interior queixoso, do outro, um poder político que ignora e dança ao sabor do mediatismo. Quem perde não é, só, o Interior, é o país. Perde o Interior por ninguém tomar o seu partido e colocar um freio no ciclo vicioso de abandono a que foi vetado. Perde o país por subaproveitar o seu território, por sofrer as nefastas consequências de uma população demasiado concentrada. Perde Portugal, o futuro do seu pleno potencial!

Urge terminar os queixumes e as intenções, o Interior, o País, precisam de reivindicações concertadas, objetivas, concretas, de mais ação do que intenção. Os problemas são comuns e as causas conhecidas, mas a fatalidade só se apresenta para a impotência da ação e, todos nós, temos o direito e o dever de nos unirmos na demanda de ações concretas pelo Interior.

Esta é a ação que nos une!

Por mais pequena que possa parecer, gota após gota, uma onda é desencadeada. O Interior precisa disso, de pequenas gotas, constantes, reais, que vão deixando a sua marca de mudança, mesmo que devagar, mas gradualmente, pois todas somadas representarão a grande onda da efetiva mudança.

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