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Biorrefinarias

Após a catástrofre dos incêndios florestais ocorrida no passado recente o governo apressou-se a apresentar, quase em ato contínuo, uma série de medidas conjunturais, afirmando que vai apostar em Biorrefinarias e Centrais de Biomassa. Tudo parece fácil e simples. Não concordo com tal abordagem. O problema dos fogos florestais e a gestão da floresta exige uma reforma estrutural, pensada, participada e envolvendo acordos consolidados entre os partidos do arco do poder.

A recolha de resíduos florestais é um imperativo pois reforça a segurança das florestas, contribui para a nossa sustentabilidade energética, reduz a nossa pegada ecologica e potencia o nosso crescimento económico, sobretudo nas zonas de menor densidade populacional promovendo também a coesão territorial e social.

A aposta nas biorrefinarias foi apresentada de forma desgarrada. Sem reflexão. Sem preparação. Sem planeamento. Sem sustentabilidade. Muitas poderiam ser as questões levantadas sobre esta matéria. Onde vão ser implementadas estas instalações? Com que financiamento? Que tecnologias poderão ser utilizadas? Pretendemos produzir o quê? Calor? Electricidade? Biocombustiveis? Gasosos? Liquidos? Sólidos? Que capacidades nominais? Enfim ninguém sabe nada a este propósito… E será que os nossos governantes sabem verdadeiramente o que é uma biorrefinaria? Vou me concentrar apenas nesta ultima questão.

As biorrefinarias são hoje excelentes oportunidades e grandes desafios para o mundo. O petróleo continua a ser a principal matéria prima para uma gama imensa de produtos que fazem parte do nosso dia a dia: combustíveis, plásticos, tecidos e uma infinidade de químicos utilizados na fabricação destes e de tantos outros bens importantes para o nosso quotidiano. No entanto, sabemos que não poderemos contar com esse recurso por muito mais tempo. O aumento da sua escassez caminha lado a lado com o aumento do seu custo, gerando um impacto imediato na vida de milhões pessoas. Isto sem contar com os enormes problemas ambientais que advêm de sua utilização. Nunca é demais relembrar que a combustão do  petróleo, origina a emissão para atmosfera de todo o carbono absorvido no subsolo ou no fundo dos oceanos, há milhares de anos atrás aumentando assim a quantidade de gases de efeito estufa, que tem influencia directa no aumento da temperatura do nosso planeta.

Neste contexto, as biorrefinarias surgem como oportunidade de obter os mesmos produtos gerados a partir do petroleo, só que utilizando matérias primas finitas e com zero emissões de carbono. Entende-se como Biorrefinaria a evolução das tecnologias baseadas em biomassa como matéria prima, que alia processos biológicos, térmicos e químicos e aproveita as sinergias existentes entre as distintas tecnologias, dando como resultado um leque completo de produtos.

Os produtos de biorrefinaria podem ser agrupados em duas categorias. A primeira refere-se aos produtos de energia, podendo ser gasosos (biogás, gás de síntese, hidrogénio, biometano), sólidos (pellets, lignina, carvão vegetal) e líquidos (bioetanol, biodiesel, biocombustíveis Fischer Tropsch, bio-óleos). E a segunda trata de produtos químicos e materiais, podendo ser agrupados em: químicos, ácidos orgânicos, polímeros e resinas, biomateriais, alimentos e ração animal, fertilizantes, cosméticos e fragancias.

Numa fase ainda embrionária de todo processo onde existe uma panoplia de alternativas no que concerne às matérias-primas a usar, produtos pretendidos e processos produtivos a adoptar surgem desde logo alguns pressupostos a ter em conta, designadamente: (1) desenvolvimento das melhores práticas de aproveitamento da energia química contida na biomassa, através de técnicas de conversão de alta eficiência; (2) minimização de custos e maximização da  competitividade dos produtos finais; (3) aposta prévia na análise de ciclo de vida das instalações ainda na fase de concepção e projecto.

Aproveito esta oportunidade para desejar a todas e a todos Votos de Festas Felizes na esperança que o proximo ano nos traga um novo ciclo politico onde as medidas estruturais prevaleçam sobre as conjunturais e que a gestão a longo prazo impere sobre a gestão da ”espuma” diária.

 

 

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