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Um Partido, dois homens, um futuro incerto e outras notas…

Aparentemente, estamos em tempos de eleições. O Partido vai a eleições internas no dia 13 de janeiro e a escolha entre Rio e Santana é muito óbvia para alguns, mas parece-se, que para outros tantos a escolha já não recolhe tanta evidência. De facto, dirão alguns (talvez os mais conscientes e lúcidos) que é sinal do estado a que chegámos. É verdade, assino de cruz. O PSD vive hoje um momento insólito, depois de anos de uma liderança estável e diria até sólida de Pedro Passos Coelho vemo-nos agora retidos numa espécie de neblina ou nevoeiro que não deixa ver bom futuro. A escolha, não é simplesmente entre Santana e Rio, pois trata-se sobretudo de uma escolha entre um líder que já o foi e outro que nunca o foi, entre o primeiro primeiro-ministro a ser dissolvido e o presidente de câmara que fez os mandatos todos por inteiro, organizou as contas da câmara e saiu sem escândalo à vista (creio eu).

Sinceramente, entre Santana e Rio, prefiro Rio. E se fizermos as contas todas, somos capazes de encontrar sentido lógico nesta opção. Repare-se, se recorrermos ao simples exercício sociológico de partir para a rua, e tentarmos auscultar os populares vamos, certamente, dar conta de que Rio é um dos favoritos para próximo primeiro-ministro. Muitos, provavelmente, até teriam votado em Rio para a presidência do executivo camarário da sua cidade, outros ainda são imediatos a reconhecer sinceridade em Rio e determinação na execução de uma boa política financeira e fiscal. E de Santana que dizer? Os poucos meses em Santana foi PM bastaram para que nas urnas, o povo português elege-se que aquele que viria a ser o pior primeiro-ministro de Portugal. No fundo, os Portugueses escolheram Sócrates a Santana, vamos querer que em 2019 os Portugueses escolham Costa a Santana? É um risco a não correr. Dir-se-á por aí que Santana não é o que se viu naqueles meses de governo, mas sucede que as trapalhadas e os escândalos foram suficientes para o atirar para a galeria dos não recomendáveis de muitos portugueses. Isso associado ao facto de ter sido um funcionário de Costa na gestão da Santa Casa, nomeadamente com a cedência à pressão de Costa para que colocasse a própria instituição no jogo da roleta russa da banca portuguesa.

Mas vamos ao que interessa, as ideias? Onde estão as estratégias e os planos para o novo PSD depois de 13 de janeiro? Será que as há? Aqui chega-se há parte mais difícil desta campanha. Trata-se de uma escolha de uma liderança, não de um programa de governo (esse só aparecerá lá para 2019). Esta diferença é importante, pois está em causa a escolha de uma só pessoa para ser o rosto e a figura de proa do principal partido da oposição. Se é para isso, Rio volta a ser uma boa escolha, ausência de currículo negativo aliado ao sucesso na consolidação das contas da Câmara do Porto e ao facto de recolher boa imagem junto de muitos portugueses parece-me ser útil para fazer o que Santana se propõe a fazer: unir o partido e ganhar o país. Mas enganem-se os que pensam que Rio não tem ideias, até porque as mesmas serão discutidas em sede própria. No congresso nacional onde decorrerá a discussão e debate das respectivas moções de estratégia, aí será o lugar oportuno para que todos cumpram a parte do “unir o partido”, unir o partido em torno de ideias e projectos políticos votados pelos próprios. É isso que se pretende.

No jogo das lideranças escolhemos pessoas, pessoas com currículo e trabalho demonstrado e também com ideias, ideias essas que estão espalhadas na governação prática das coisas e no discurso diário. Para muitos a escolha a fazer no dia 13 não é simples e muito pouco evidente, para outros nem tanto. Mas independentemente do que suceder depois de 13 é preciso pensar no partido e no futuro do mesmo, não podemos arriscar que tal estado de coisas permaneça igual e nos arrisquemos a ficar na oposição ad eternum. Os dois últimos anos de Passos não foram bons, nada bons, e precisamos todos de reconhecer isso e se esse reconhecimento for feito, bem como o corte imediato com a estratégia seguida até aqui – é meio caminho para o sucesso – até porque até aqui já percebeu o que de todo não se deve fazer, agora basta apenas saber construir consensos e não estar constantemente atirar a toalha ao chão sempre que os partidos à esquerda nos chumbam qualquer coisa. Rio é indicado para tal, ao contrário de Santana (que prevejo dificuldade em trocar o disco ao partido).

Mas que não se esqueça do seguinte, se hoje Costa tem sucesso a Passos o deve. Nada, absolutamente nada do que hoje vai acontecendo é que deixa Marcelo, Costa e Centeno com um sorriso de orelha e orelha seria possível ser o governo PSD/CDS. E é importante que todos os dias se lembre isso a um país que parece andar adormecido com as boas notícias. O ponto de viragem já começou, agora é preciso que alguém lhe dê seguimento.

Outras notas:

niciamos a agenda da semana com o caso dos desvios de dinheiro na Associação Raríssimas pela sua presidente Paula Brito da Costa. Um caso que ainda fará correr muita tinta mas que não deixa de ser paradigmático de um certo estado em que o associativismo se encontra. A utilização das condições ida associação, sejam elas materiais ou financeiras, para proveito próprio dos seus dirigentes é assunto que merece devida atenção. Sendo certo que precisamos de uma sociedade civil forte e coesa, preparada para corrigir e auxiliar os poderes públicos, é também certo e sabido que não podemos continuar a achar que basta apoiar o associativismo por si só, precisamos sobretudo de apoiar e fiscalizar, mas sobretudo apoiar com critério. No fundo, tudo se resume à capacidade crítica de escolha e avaliação do que é realmente importante.

Retomando ao caso da Raríssimas, entre as compras de alto valor no El Corte Inglês, as prestações do BMW, as viagens e o alto salário é grave dar de contas com a falta de acompanhamento por parte do Estado na entrega de verbas. Mas mais ainda, se é o Estado a entregar a maior parte das verbas porque razão não é o Estado a prestar aquele tipo de cuidados? Deve-se à possibilidade de receber donativos privados? Ou será que o tipo de cuidados é melhor? Questões que tentaremos perceber brevemente.

 

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