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Um estudo político sobre carnívoros de água doce

Falar sobre comportamento político, social ou institucional não é fácil. Afinal, falamos de comportamento humano. E há quem tenha focado a sua vida académica nesses campos. Não é o meu caso, mas gosto de acreditar que até percebo de alguma coisa.

Por isso, faz-me sentido comparar certas situações a um aquário de piranhas.

Ora, as piranhas não são animais propriamente bonitos ou amistosos e, quando a fome aperta, são bem capazes de comer o que lhes aparecer à frente, mesmo que seja a vizinha do lado.

Vamos então supor que tenho um cardume de piranhas num aquário lá por casa. Alimento-as regularmente e garanto o suprir das suas carências com todo o carinho. No entanto, durante um fim-de-semana inteiro, não fui a casa e, quando cheguei, uma das piranhas não tinha um olho, outra tinha perdido uma barbatana, a seguinte foi declarada “desaparecida em combate” e a última pareceu-me mais forte do que o habitual.

Fiquei em choque. Em choque com a minha própria negligência e, especialmente, porque me esqueci do resultado previsível da minha inação.

Afinal, as piranhas fizeram de tudo para sobreviver, respeitando a sua própria Natureza.

Invariavelmente, na hora do aperto, haverá sempre um “aquário de piranhas” por perto. E o ser humano torna-se numa piranha sempre que, voluntariamente ou não, se vê em águas turvas.

A questão é: eu posso escolher qual piranha quero ser? Dependendo do contexto e das demais piranhas, sim. Mas a vida é uma carta em branco…

Podemos ser a piranha que chega a segunda-feira mais gordinha – a “mais forte” -; podemos permitir que nos arranquem um olho ou uma barbatana (com mais ou menos luta). Mas para desaparecer em combate, creio que é preciso maior astúcia. É que posso não chegar viva à semana seguinte ou posso optar por aproveitar a confusão do meu aquário a meu favor: escondendo-me e colocando outras piranhas à minha frente como escudo.

Charles Darwin já nos falou sobre isto na Teoria da Evolução. Dizia-nos que quem sobrevive é o mais forte ou o que melhor se adaptou ao meio. E as piranhas são excelentes exemplos disso.

Quando a última piranha morre à fome – por excesso de gula ou incompetência própria – o dono escolhe voltar a ter um aquário habitado ou não. E isto parece-me estratégia de terra queimada. E tem tanto de interessante como de perigosa, pois não imaginamos quem serão os próximo habitantes do aquário.

Este – mais do que básico – estudo político sobre carnívoros de água doce não pretende mais do que estimular o pensamento e a auto-consciência.

Já escolheram que piranha querem ser? Serão a mesma em todos os aquários? Terão escolha em todos os aquários? Terão de improvisar constantemente?

Uma dica útil é que, geralmente, as piranhas só comem animais de grande porte quando estão em grupo. Vale a pena trabalhar em equipa ou ser a piranha mais insaciável e solitária do aquário lá do sítio?

O meu conselho de quem anda há poucos anos no Planeta Terra é: cuidado com os aquários das piranhas. Não só são habitados por seres com valores pouco superiores ao próprio estômago, como também podem ser demasiado pequenos para grandes festas.

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