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Nós, Jovens

Ao longo do último ano fomos sacudidos por notícias inesperadas, de última hora, que nos deixaram incrédulos, num futuro incerto de navegação à vista.  O Brexit, a eleição de Donald Trump, as ameaças populistas em vários Estados-Membros da União Europeia, sugerem um retrocesso na evolução da sociedade europeia e mundial. Paradoxalmente, caminhamos para um futuro de rápido desenvolvimento tecnológico em que muitas profissões serão substituídas por robots e, no limite, talvez não precisemos trabalhar para obter rendimento. Ainda que correntes protecionistas e nacionalistas se instalem e até ganhem algum poder um pouco por todo o lado, a velocidade da globalização, o desenvolvimento da sharing economy  ou dos digital jobs não vai abrandar  e portanto nenhum país conseguirá sobreviver, evoluir e desenvolver-se alheado do Mundo. Nestas circunstâncias de surpresa e novidade (e até algum receio), qual é o nosso papel na sociedade? O que podemos esperar da mudança rápida em áreas como o mercado de trabalho, a educação ou o acesso à habitação? Afinal, o que é que queremos?

As três perguntas não têm respostas fáceis. Começo ao contrário, pela última. A nossa geração (os famosos millennials), nasceu num contexto de liberdade, de democracia, de direitos adquiridos, de segurança, de acesso à educação generalizado, valores pelos quais a geração anterior lutou e que nós herdámos, quase como um presente. Ora, hoje, a informação circula sem grandes barreiras; temos liberdade para dizer o que nos apetece a qualquer instante; estamos sempre ligados por smartphones, tablets, computadores; viajamos para todo o lado… Então, o que nos falta? Apesar desta grande revolução da nossa sociedade, há determinadas coisas que, eventualmente, queremos tal como a geração anterior. Todos desejamos ter um emprego. Mas, queremos um emprego fixo, para toda a vida, como na geração dos nossos pais?  “Viajar! Perder países![1]”: será que preferimos viajar por todo o lado, e portanto comprar casa e carro deixou de ser uma prioridade dos millennials? Aceitamos ficar em casa dos nossos pais até aos 30 porque ter casa própria deixou de ser um objetivo de vida ou tornou-se mais difícil do que na geração anterior? E a família? Continua a ser um elemento nuclear na sociedade. No entanto, há hoje novos tipos de família que se vão impondo à conceção tradicional da mesma. Vemos que não há uma resposta concreta à pergunta “o que queremos?”. Provavelmente,  queremos apenas ter oportunidades de nos realizarmos, de sermos bem sucedidos neste novo paradigma.

Esta problemática das expectativas, de oportunidades e das suas concretizações (ou realizações) leva-nos à segunda pergunta. A forma como a nossa geração se vai adaptar a toda esta mudança no mercado de trabalho, com a automação e a introdução de robots, a forma como queremos trabalhar – talvez o tradicional horário das nove às cinco já não seja adequado aos padrões do trabalho presente e futuro (!) –, ou até a segurança laboral serão, sem dúvida, desafios dos quais não podemos escapar, nem adiar! Mais, a depreciação do fator trabalho trará inevitavelmente à discussão novas formas de redistribuição da riqueza em que se insere, por exemplo, o rendimento básico universal.  E é a preparar e antever este futuro próximo que nos devemos focar e exigir, daqueles que nos representam, respostas que assegurem e se materializem num porvir próspero.  O tempo não volta para trás, bem pelo contrário, corre disparado. Urge, por isso, adaptar, educar e apetrechar o capital humano para esta nova realidade. Se caminhamos para uma sociedade cada vez mais robotizada, talvez faça sentido reformar o sistema educativo e desenhá-lo à imagem do futuro. Neste novo quadro educativo, por que não introduzir a disciplina de “programação” nos currículos escolares dos vários níveis de ensino?

E, por fim, chego à primeira pergunta, sobre o papel da juventude nesta sociedade “mutante”. Se sabemos (1) o que queremos e (2) o que fazer para concretizar as nossas ambições, falta agora definir uma estratégia de longo-prazo que inclua todas estas dimensões que vão da educação à saúde, da escassez dos recursos ao desenvolvimento sustentável, da terciarização à automação/robotização da economia ou do trabalho às novas formas de redistribuição de riqueza.

Nesta definição de estratégia devemos todos contribuir. Contudo, é necessário primeiro garantir que esta digitalização da sociedade chega a todos (educação), para que a tecnologia esteja também ao serviço da participação social dos jovens neste processo de transformação. Acho que estamos dispostos a enfrentar a mudança com a irreverência que nos caracteriza, e, por isso, não nos devemos resignar suavemente com o que nos vai sendo imposto. Devemos, sim, exigir que este debate seja incluído na agenda política do presente. Apesar dos fenómenos de fechamento que pairam aqui e ali no mundo e que, de certa forma, se traduzem em sintomas de resistência ao progresso, nós, Jovens, temos de participar ativamente e construtivamente nesta mudança.

[1] Fernando Pessoa, edição original de Assírio & Alvim

 

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