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A Mediocridade da Caridade

Se se tivesse que avaliar a sociedade atual pelos valores que possui, na minha opinião e com alguma condescendência seria medíocre. Numa escala de valores, medíocre sempre foi representativo de uma classificação que não era mau mas que também não era suficiente. Prosseguindo com a minha linha de pensamento, julgo por bem dizer que em pleno séc. XXI dizer que algo é medíocre é fazê-lo por caridade. Este é um dos temas muito em voga na sociedade atual. A sociedade onde nos enquadramos revela que pouco evoluiu desde os tempos de Salazar – onde havia os chás de caridade, onde se praticava caridade – e os ventos de mudança mais apelativos à solidariedade. Julgo que há de facto uma determinada elite que “brinca aos pobrezinhos” e como tal fazem eventos de caridade, mas também não o escondem. Apelido este comportamento de pobreza de espírito.

Contudo, onde está então a diferença entre caridade e solidariedade? A caridade sempre foi feita numa escala decrescente, dos mais ricos para os mais pobres, onde estes eram presenteados com oferendas (fosse do género alimentar, ou peças de vestuário, e por vezes medicamentos) que agradeciam com uma postura de vénia qual vassalo perante suserano. A solidariedade significa apoio, termos empatia por uma causa, apelarmos aos nossos amigos e assim sucessivamente, não olhando nunca à bolsa de cada um; de um modo simplista, digamos que não interessa o que se dá nem quanto se dá mas sim o empenho, o carinho e de um modo geral: o gesto. Não falo de intenções porque isso todos as têm, logo porquê destacá-las no meio de tantas outras iguais.

O problema é que têm surgido tantas causas e todas tão diferentes, que nos perdemos num turbilhão de abraços, de beijos, de notícias, de contas bancárias, de correntes solidárias, de manifestações efusivas que tornaram vulgar e banal o termo solidariedade, que passou inclusivamente a ser conhecido por “ondas de solidariedade”. Todos fazemos ondas de solidariedade! A televisão apoia, mostra o passadiço vermelho, as estrelas, as vedetas, as “Barbies” e os “Kens”. Um show off interrompido por conversas paralelas de personagens ditas importantes e sempre aquele rodapé com o número de telefone a apelar a mais uma chamada. De uma tragédia, de uma situação triste que nunca deveria ter acontecido, passou-se para um palco, para um ecrã, para as casas de milhares de portugueses que assistiam, vibravam e aplaudiam sem cessar todo este artifício. Será que esta onda foi de solidariedade? Ou manifestamente caridade? Eu não sou, felizmente, nenhuma das pessoas enlutadas de Pedrógão, mas vivi durante aqueles dias a impotência, a desorganização e acima de tudo a tristeza de perdas de vida humana e não só como à desertificação em massa de uma vasta zona de Portugal. No decorrer do programa mostraram várias vezes imagens de Pedrógão onde tentavam a todo o custo que as pessoas ali presentes rissem e se sentissem gratas por todo o apoio que Portugal estava a dar. Não querendo fazer uma corrente de maledicência, apesar de ter gostado que diversas pessoas do mundo das artes se tivessem juntado para angariar fundos de apoio, nunca deixei de pensar se era necessário tanta publicidade, tanto glitter a entrar pelas famílias enlutadas e a querer fazer dos outros meros assistentes de uma fornalha infeliz que em poucos dias abalou Portugal deixando para sempre nos nossos corações um sentimento inconfundível de terra queimada.

Quando a caridade e as ondas de solidariedade se misturam, onde ficam realmente os pobres? Os menos felizes? Os enlutados? Os filhos de um Deus menor!

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