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RESPOSTA A ACÁCIO PEREIRA, APRESENTO-LHE A UBI

Acácio Pereira não é reconhecido por escrever e defender propostas concretas para o progresso socioeconómico do país. Mas é conhecido pela crítica destrutiva e pelo ódio visceral com que destila algumas das suas opiniões. A mais recente, n’O Interior, é intitulada de “A UBI tem de sair da Covilhã”. E, se ignorarmos a inveja, a falta de conhecimento e o estatuto peripatético que o levam a vomitar meia dúzia de parágrafos com uma notável conotação odiosa, até podemos discutir alguns dos argumentos realmente pertinentes que colocou em cima da mesa.

Antes de tudo, uma declaração de interesses: nasci, cresci, vivi e estudei na Covilhã. Foi na UBI que me formei intelectual e pessoalmente. Foi nesta academia que sorri e chorei. É de cá que eu sou, é desta gente que eu venho e, um dia, é para cá que eu volto.

Por conseguinte, Acácio, deixe-me contar-lhe uma história.

A Covilhã foi um referencial dos lanifícios desde o século XVII e, entretanto, já passaram 47 anos desde que a ‘Manchester portuguesa’ foi vítima da crise industrial. Três anos depois, a ‘cidade-fábrica’ transformou-se em ‘cidade-campus’. O turismo, o agroalimentar, o volfrâmio e as (tentativas de) novas tecnologias marcam a Covilhã dos dias de hoje, mas é a Universidade, nascida das ruínas das antigas fábricas, que atenua o inverno demográfico na região.

Afirmou que o ensino superior na Beira Interior (distritos da Guarda e Castelo Branco) caminha para o seu “definhamento”, teoria que diz ser corroborada pelas “vagas por preencher e as muitas só preenchidas como recurso”. A falta de atenção e de conhecimento leva-o à mentira fácil. Por isso, permita-me relembrá-lo que, em contexto de diminuição do número de colocados no ensino superior, a UBI configurou-se como a instituição do arco interior do país com maior aumento do número de alunos, preenchendo 90% das vagas na primeira fase do concurso nacional de acesso desde 2015. Ao passo que outras universidades têm perdido estudantes, a academia beirã tem superado as adversidades e conseguiu, no espaço de um ano, entrar em três rankings da Times Higher Education para as melhores universidades da Europa e do mundo (para não falar noutros rankings por área ou prémios diversos).

Como dizia o seu reitor, a UBI é a universidade mais improvável do país. Em 1973, o então Instituto Politécnico da Covilhã nasceu com 143 alunos. Repito: 143 alunos. Por essa altura, já a Universidade de Coimbra tinha 683 anos de existência. Hoje, a UBI conta com cerca de 7000 estudantes, com uma evolução positiva clara e admirável. No entanto, a fórmula de dotação de financiamento para o ensino superior tem em conta o “historial” das universidades e não a sua tendência positiva ou negativa, beneficiando quem, no passado, deteve um certo “monopólio” na atração de estudantes. É precisamente este modelo que faz da UBI a universidade mais subfinanciada do país.

Comparar a UBI ao IPCB (67.5% de vagas preenchidas) ou ao IPG (41.3%) é intelectualmente desonesto. Mais não seja, porque se tratam de dois subsistemas de ensino distintos, bem como pelo facto de a primeira ter um crescimento positivo, contrariamente aos segundos. O IPCB passou de 4.671 alunos, em 2009, para 3.546, em 2015. Já o IPG, por sua vez, sofreu uma queda de 3.117 para 2.630 alunos no período homólogo. Apenas a UBI conseguiu aumentar os alunos matriculados e, em 2015, as candidaturas até ultrapassaram o número de vagas a concurso – em grande parte, graças a alunos estrangeiros (a UBI a “sair da Covilhã”, Acácio).

É óbvio que existe um problema de repetição da oferta formativa. Os cursos de Biotecnologia, Ciências Biomédicas, Contabilidade, Design de Moda, Desporto, Educação Básica, Enfermagem, Engenharia Civil, Engenharia Informática e Gestão encontram-se repetidos em duas ou três destas instituições separadas por um raio máximo de 100km. Mas a duplicação de cursos não pode servir de pretexto para impedir a cooperação interinstitucional. O diálogo e a criação de polos especializados são a melhor estratégia para superar as adversidades da interioridade e a solução que propusemos segue precisamente o exemplo do consórcio entre a Universidade do Minho, Porto e UTAD. No entanto, isso não se faz como o Presidente do SCIF-SEF sugere, integrando o IPCB e o IPG na UBI só para evitar o seu “definhamento”. Não. A UBI não pode ser o escape para o declínio de uns; tem que ser uma parte interessada e complementar num projeto integrado e com visão estratégica. Os politécnicos têm que ter interesse em cooperar com a UBI porque têm algo de diferente para oferecer ao ensino superior e isso beneficiaria todos por igual, conferindo escala à região – não somente para garantirem a sua própria sobrevivência e adquirirem um poder que a capitalidade não lhes conferiu. Até porque, Acácio, não pode propor “distintos polos com dimensões equitativas” se nenhum dos outros concelhos tem dimensão infraestrutural, mercado imobiliário, hospitais universitários, comércio e noite para suportar a monstruosidade que é a UBI.

Falou também na necessidade de discutir “se os ensinos universitário e politécnico devem coexistir”. Claro que devem. A solução para o problema do seu artigo é precisamente o aprofundamento da binariedade, que em nada afeta a cooperação interinstitucional. Sejamos sinceros, nunca será justificável que um politécnico queira leccionar doutoramentos ou que faça um caminho de aproximação à realidade universitária quando, acredito, teriam mais a ganhar seguindo o propósito da sua existência: um ensino prático, com ligação ao mercado laboral e ao meio territorial, ao passo que as universidades se focam no ensino teórico, na produção de conhecimento e na investigação.

Por fim, quando fala em “a UBI ter que sair da Covilhã”, talvez argumente uma atuação e projeção fora da cidade-campus. Relembremo-nos, então, que a UBI tem dezenas de projetos com concelhos vizinhos (sim, não é só com o Fundão – entre 2013 e 2017, a universidade assinou 182 protocolos com entidades públicas e 358 com empresas privadas, articulou-se com o IEFP, inaugurou o UBIMedical e acolheu o Centro Académico Clínico das Beiras) e que, ao contrário do subsistema politécnico, não se suporta na preferência regional: adotou uma estratégia de internacionalização que, como supramencionei, fez com que grande parte dos seus estudantes não sejam sequer provenientes da região.

Em jeito de síntese, Acácio, se quiser escrever sobre os problemas do ensino superior na região e no país, pode antes refletir sobre o modelo de financiamento das IES, o atraso ou não pagamento das bolsas de ação social, a falta de incentivos ao desporto universitário, o regresso do programa Retomar e a correção do programa +Superior para fixar alunos no interior. Ou sobre o RJIES, a revisão do estatuto do dirigente associativo estudantil, o regime fundacional e as disparidades que acarreta nas oportunidades entre litoral e interior, a falta de equidade na representação discente/docente e a composição dos Conselhos Gerais. Ou, ainda, sobre o (não) funcionamento da FCT, os incentivos à investigação científica, a proteção social para bolseiros de doutoramento, o combate à precariedade académica e o desafio do abandono escolar. Pode refletir sobre tudo isto. O que não pode é defender uma solução imposta “de cima”, por políticos, quando caminhámos décadas na defesa da autonomia institucional e académica. Não lhe fica bem impor uma decisão baseada num método autocrático quando almejamos uma maior auscultação da sociedade e dos indivíduos no processo de tomada de decisão. As revoltas estudantis e o progresso civilizacional e académico não podem voltar atrás.

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