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É na tragédia que se mede o nosso caráter

Faz parte do nosso feitio, enquanto portugueses de Portugal, sermos uns contra os outros durante a maior parte das nossas vidas. Casmurros somos, implicativos não menos, e exigimos mudanças numa base diária. Confrontamo-nos quando o Benfica é campeão e desatamos à batatada pela Agência Europeia do Medicamento. Uns gritam Lisboa, outros Porto e mais alguns ainda puxam pelo Interior, fazendo parecer que Portugal não é todo dos portugueses e que os portugueses não são todos de Portugal.

Fincamos o pé na política, mesmo quando não vamos votar, e gladiamo-nos por esses cafés e redes sociais, habitando um país unido pela cultura e dividido pela ideologia. Corre 2017 e mantém-se uma batalha dura pelos Direitos LGBT, com opressores a favor e opressores contra, ofendendo-se mutuamente em praça pública e sempre que há oportunidades de tal, gerando um ódio que mais que pessoas divide gerações. Isto numa altura em que o generation gap já nos vai asfixiando.

Mesmo agora, após o dia em que os portugueses se feriram com uma tragédia sem precedentes, continuamos a andar divididos. Discutimos não se há responsabilidades, ou não, mas sim se é o momento para discutir as responsabilidades. Pecando o debate pelo conteúdo de origem, causa-se e gera-se controvérsia e divisão pelo seu pendor predominantemente moral.

A verdade é que não é nestas discussões entre portugueses e portugueses que se encontra a verdadeira essência da nossa portugalidade. A nossa força, raça, História, a cola que nos une, vêm do muito nobre espírito de solidariedade e entreajuda que nos caracteriza. Faz-nos colocar o coração à frente da razão e sem embaraço nenhum. Rimo-nos connosco, mais ai de quem se ria de nós. Choram uns, choramos todos e é nesta coletividade que reside o nosso caráter lusitano.

Durante estes últimos dias, vimos famílias arrasadas e casas desabadas. A nossa floresta e riqueza natural ardem à mercê de um acontecimento dantesco que destroçou localidades inteiras do nosso Portugal. Vimos habitantes de aldeias, sem auxílio das autoridades adequadas, a ter que defender os sítios onde cresceram, viveram e geraram vida. Disputaram-se tais batalhas que, numa de muitas, onze deram a vida em nome da sua comunidade, numa guerra inglória, desequilibrada e forçada.

Não era a nossa terra, mas era a nossa terra. Pelo resto do país, longe dos fogos e da aflição, cerrámos dentes e fileiras, lutando da forma que pudemos. Iniciaram-se campanhas de Norte a Sul, para ajudar combatentes, muitos, e vítimas, não menos. As pessoas solidarizaram-se , celebridades e anónimos, todos portugueses, outros nem isso eram, e doavam parte das suas poupanças para fazer face à nossa Natureza adversária.

Durante estes dias, socialistas e social-democratas, bloquistas ou comunistas, todos partilhámos as mesmas publicações, os mesmos pedidos de ajuda e contribuímos nas mesmas contas bancárias, pela mesma razão. Durante estes dias, cessaram-se festas, arraiais, campanhas políticas e trincheiras de combate.

Baixámos as armas, estendemos os braços e abraçámo-nos enquanto portugueses. Quem se mete com um, leva com todos. Se um sofre, sofremos todos também. Continuámos, claro, a ser casmurros, implicativos e a exigir mudanças, mas se assim não fosse também não éramos portugueses de Portugal. Lá no fundo, no coração, onde realmente conta, somos uns pelos outros, ainda que não com a frequência que Portugal precisa e merece.

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