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“Enquanto Há Homens Não Se Confessam Mulheres”

Confesso que em tempos as questões sobre desigualdade de género me causavam fastídio, achava-as desnecessárias num país democrático como Portugal onde as mulheres já votavam, já tinham igual acesso ao ensino superior e “até” já tinham direito ao divórcio. Estava convencida que, à exceção da vida doméstica, onde ainda muito havia a fazer, tudo se passava de forma completamente isenta. Vivia eu estes tempos, em muitas escolas públicas, básicas e secundárias, do distrito de Castelo Branco onde todos os docentes são colocados a partir de uma lista nacional e única, ordenada conforme a média do curso mais os anos de serviço na qual, nem para critério de desempate, o género é considerado.

Mais tarde, saída da redoma do sistema de ensino, percebi que em certos círculos profissionais a igualdade de género não passa de retórica.

Há quem diga que a mudança ainda não aconteceu porque as mulheres ainda não tiveram tempo de chegar aos lugares de topo uma vez que “só agora” aconteceu a emancipação da mulher. Pois bem, segundo dados da Pordata, observamos que o número de alunas matriculadas no ensino superior entre 1978 e 2003 passou de 34.065 para 226.860, respetivamente. Desde 1986 até ao presente são sempre em maior número que os homens. Em 86 eram mais 1200 alunas que alunos, em 1996 mais 48.000, em 2006 mais 38.000. Há mais de 43 anos que a emancipação da mulher é legislada, estas têm hoje 60, 50, 40, 30 anos e raramente as encontramos nos lugares de topo.

Quando se discutem temas como a igualdade de género discute-se, necessariamente, a lei da paridade que, como sabemos, define a obrigatoriedade de uma representação mínima nas listas eleitorais de 33.3% de cada um dos sexos, não podendo conter mais de dois candidatos(as) do mesmo sexo colocados(as) consecutivamente na ordenação da lista.

Comummente ouvimos, de homens e mulheres, que esta lei é uma afronta para as mulheres pois estas deverão chegar aos primeiros lugares por mérito próprio, não por imperativo da lei.

Assumem que é uma afronta porque consideram, à priori, que as listas impedidas pela lei serão só as de homens, nunca é pressuposto que uma lista só de mulheres também é impedida pela lei.

A família, a sociedade, são algumas das razões evocadas para explicar a ausência de mulheres em certos lugares de topo onde a escolha nunca foi uma mulher. No entanto, nos lugares que não dependem de escolhas, mas sim de candidaturas isentas, elas estão em grande número.

Quanto ao “mérito próprio” pergunto pelas mulheres universitárias (já para não falar das outras) de 1976, 1986, 1996, estas não tiveram mérito suficiente para chegar ao topo das hierarquias tal como chegaram os seus colegas de curso?

Grande parte dos homens e mulheres convencem as jovens que é preciso fazer uma escolha, ou se é líder ou se é mulher; que a mulher nasceu para ser mãe, esposa e sensível e todos os atos que não impliquem uma destas coisas não é próprio de uma senhora.

Será caso para dizer que nem sempre o exemplo vem de cima e nem sempre se aprende tudo nas escolas.

 

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