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Bolseiro: espera a vida inteira

O título deste artigo tem na sua origem o slogan “Bolseiro: espera um semestre inteiro”, utilizado pela JSD no seu comunicado de 18 de Janeiro. Ora, ainda que infelizmente tenha de deixar cair a rima no título, parece-me que o alargar do tempo de espera de um bolseiro para o período vitalício retrata melhor a vergonhosa situação de precariedade e falta de oportunidades que vivem os bolseiros portugueses.

O ano de 2016 constitui muito provavelmente o ano mais negro do nosso Ensino Superior. Para todos aqueles que durante quatro anos se deliciaram com críticas gratuitas ao modelo adotado pelo ministério de Nuno Crato, façam por favor o sério exercício de refletir sobre o que se passou no ano transato. O ano da nossa grande alegria futebolística, foi também o primeiro ano em que nenhuma candidatura a bolsa de estudos no Ensino Superior, quer de cariz científico, quer de ação social, obteve uma reposta. O governo do “faz-de-conta que está tudo bem” cometeu a proeza de ver passar 366 dias (note-se que até o ano tinha um dia a mais, tudo em favor do governo socialista) e não ter sido capaz de responder às mais de 5000 candidaturas a bolsas individuais de Doutoramento e Pós-doutoramento da FCT, nem tem pouco aos outros 45000 alunos que aguardavam pacientemente pelo financiamento de ação social. Sobre a situação dramática dos bolseiros de ação social, em particular aqueles que se candidataram ao programa +Superior, convido-vos a ler o comunicado de 10 de Fevereiro da JSD distrital de Castelo Branco. Neste artigo vou olhar exclusivamente para aquilo que se passa no financiamento científico de Portugal. E só isso, meus caros, dá-nos já muito material para refletirmos…

Parece-me a mim que é um bom momento para voltarmos a olhar para o título deste artigo e tentar justificar a sua semântica. Ainda que talvez exageradamente poético, o percurso de um bolseiro da FCT, quanto a mim, deveria ser como a metamorfose de uma pequena larva. Começando como um pequeno ser, indefeso e frágil, o bolseiro começa o seu período de encapsulamento na altura do seu doutoramento. Assim como o pequeno inseto se refugia no seu casulo para começar a crescer, também o bolseiro de investigação utiliza a sua tese para crescer cientificamente, criar uma rede de contactos interessante e construir o seu currículo através da publicação de trabalhos científicos. No fundo, o bolseiro começa a preparar a sua vida como ser científico ativo. Ora, eis que entregue e defendida a tese, o bolseiro, agora já Doutor(a), se prepara para a fase final de amadurecimento. Esta deveria ser a altura em que é dada a oportunidade ao jovem Doutor de trabalhar enquanto investigador Pos-Doc, num ambiente próprio para que, ainda longe das responsabilidades futuras de docência e orientação dos próximos bolseiros, possa cimentar o seu currículo e adquirir ainda mais experiencia de investigação científica. Pois é então chegado o dia tão aguardado, em que o antigo bolseiro renasce como um jovem docente ou investigador permanente, qual bonita borboleta que acaba de romper o seu casulo. É a partir de agora que o ex-bolseiro poderá começar a colher os frutos do seu investimento anterior, do tempo despendido a estudar e a construir uma carreira de excelência. Em Portugal, infelizmente, aquilo a que assistimos é um constante impedimento de que a larva se torne borboleta…

O que realmente se tem passado no nosso país nos últimos anos é a um aprisionamento constante dos jovens cientistas. As mentes mais brilhantes de Portugal são obrigadas a permanecer eternamente dentro dos seus casulos. Nunca a expressão “não nos deixam voar” fez tanto sentido.

Já que é de ciência que falamos, vale a pena dissecarmos as várias etapas desta prisão vitalícia, que começa logo no início da vida científica do bolseiro. Para isso, e mais uma vez recorrendo ao método científico, olhemos para um exemplo concreto: o concurso de financiamento individual 2016 da FCT. Aos candidatos e respetivos orientadores foi imposta a deadline de submissão de candidaturas a 15 de Julho de 2016. O período não podia de facto ter sido melhor escolhido, dado que ninguém teria teses de mestrado para entregar e defender, nem os docentes estariam constrangidos pelo final do ano letivo com exames e trabalhos para corrigir, notas para entregar, e afins. A FCT sensata como sempre. Posto então este timing de candidatura, a lei impõe 90 dias uteis para ser publicada uma reposta por parte do organismo financiador, o que nos levaria até ao dia 23 de Novembro de 2016. Pois bem, a FCT divulgou os resultados a 31 de Janeiro de 2017, exatamente 49 dias uteis para além do prazo legalmente estabelecido! É por isto que digo que o bolseiro começa desde logo a sua vida científica cheio de entraves. O processo de candidatura a uma bolsa da FCT e a espera pela publicação dos resultados do mesmo concurso torna-se um processo extremamente penoso para o candidato e a sua família. Vidas de milhares de jovens ficam em suspenso devido à incompetência de um pequeno grupo de decisores. Começa logo difícil a construção do casulo para o bolseiro.

Se achávamos que tudo poderia melhorar, uma vez a tese entregue e defendida, pois enganamo-nos redondamente. Os jovens cientistas portugueses arrastam-se de bolsa de pós-doutoramento em bolsa de pós-doutoramento. Saltam de laboratório em laboratório, à espera do dia em que finalmente possam largar as amarras do seu casulo. Aguardam tristemente pelo dia em que finalmente possam ser contratados como docentes ou investigadores permanentes, ou seja, o dia em que finalmente pudessem deixar as amarras de um sistema e de um conjunto de instituições de financiamento tão injustos. Pois a dura realidade é que os corpos de docente não se renovam, as instituições não rejuvenescem, fazendo com que milhares de cientistas portugueses não tenham nunca a possibilidade de seguirem seriamente a carreira cientifica para a qual tanto lutaram.

Cabe-nos a nós, geração atual de bolseiros e futuros “desempregados altissimamente qualificados” combatermos esta situação. Não podemos pactuar com a atuação danosa dos nossos governantes e da FCT. Não é abrindo um novo concurso para financiamento individual já neste mês de Março que a vergonha do concurso de 2016 será esquecida. Muito sinceramente, haja por favor quem nos explica em que medida faz sentido realizar o concurso a bolsas de doutoramento e pós-doutoramento no terceiro mês do ano. Em que medida é que isso pode ser benéfico para alunos e orientadores. Além disso, cabe-nos a nós iniciarmos o debate sobre qual o papel que realmente a FCT deve ter na vida dos bolseiros portugueses. Não podemos continuar reféns desta instituição e dos seus injustos concursos nacionais.

A JSD distrital de Castelo Branco aqui estará sempre atenta às mais importantes questões do nosso Ensino Superior. Acreditamos num debate alargado e sério, no sentido de melhorar o futuro do ensino universitário e da investigação jovem no nosso país. Prova disso são as diversas moções que já apresentámos no âmbito da reforma do nosso Ensino Superior, assim como todos os vários já realizados (e que ainda iremos realizar), abordando o atual estado das nossas universidades. Sobretudo porque acreditamos que um bolseiro não deve esperar uma vida inteira.

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