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António Costa torneou o costado e desembocou na margem

Porque isto da geringonça já aparentou estar mais oleada:

 

1 – “Costices”

Já por aqui escrevi sobre António Costa e suas putativas façanhas como artilheiro-mor nos “acordos à esquerda” no reino da geringonça. Valerá a pena voltar ao tema porque penso que finalmente se começa a perceber a fina fibra que liga os princípios de entendimento entre os `geringonços´, bem como aquilo que parece ser uma estratégia sub-reptícia com objectivos puramente eleitoralistas. E para esse entendimento muito contribuiu a recente inflexão no apoio dos parceiros parlamentares ao governo numa questão tão intrincada como a da TSU.

 

2- Gado Vacum

No princípio era Vieira da Silva. Encarnou às mil maravilhas o papel de Rei do Gado que lhe fora conferido postumamente pelo amigo Augusto Santos Silva (António Fagundes não faria melhor) e levou uma sala embuída de espírito natalício a brindar a um facto consumado. A redução da TSU acordada em Concertação Social tinha tudo para constituir um passeio parlamentar glorioso, com o Partido Socialista a agitar bandeiras dos consensos e os partidos à sua esquerda a teatralizar reações contra o patronato. Um festim.

A Oeste nada de novo.

 

3- Que chatice, o PSD também tem assento parlamentar!

Se, por um lado, o PS contava com o ovo nas partes traseiras da galinha, por outro o PSD e CDS não foram tidos nem achados na questão da redução da taxa. O seu comportamento seria previsível nas mentes brilhantes do governo e bancada socialistas, dirão alguns. Pedro Nuno Santos chegou a blaterar a inutilidade da direita, como só os grandes democratas e estadistas se lembrariam de fazer (os banqueiros alemães ainda devem ter as pernas a tremer).

Acontece, hélas!, que o pensamento político é mutável, imponderável e sujeito a considerações no presente. E não se rege por previsíveis somas e subtrações de apoios. Se o Partido Socialista não encontrou necessidade de fazer este simples exercício de análise, acabou e acabará por chocar com a realidade.

 

4- Os tais acordos ou posições (des)conjuntas

Porém, sendo toda esta questão simples de explicar, perdura no tempo uma dúvida intrincada sem resposta: porque, aparentemente, esperaria o PS o apoio à direita, tendo em conta que a redução na TSU não estava “contratualizada à esquerda”? Não esqueçamos que, não constando das posições conjuntas assinadas entre os diversos partidos, a redução da TSU seria à partida um nado-morto. Somos obrigados a pensar então que, ou António Costa confiaria cegamente numa espécie de carta branca eterna dos antigos partidos do governo (question naive) ou, porventura, a ideia de um qualquer plano de vitimização subsequente serviria perfeitamente para lançar a idéia de “bloqueio democrático” da direita, invertendo assim o ónus do falhanço da votação.

Partindo do principio que António Costa não nasceu politicamente ontem, a segunda opção torna-se mais realista. O plano parecia perfeito: a esquerda à esquerda barafusta, insurge-se contra o patronato e vota contra. O PS defenderia o acordo com a concertação e imolar-se-ia como defensor da paz social. Por seu turno, PSD e CDS, vilões na história, afundar-se-iam na imagem social como perturbadores dessa mesma paz social que tantas vezes foram acusados de destruir.

 

5- Malhar na direita.

Acontece que, se recuarmos no tempo, Passos Coelho nunca defendeu uma solução conjunta de aumento do SMN com redução da TSU. Mas mesmo que tal fosse uma evidência programática, não cabe à direita embalar o Governo.

Esta estratégia abstrusa meio conspiracionista meio idealista só serve o propósito mártir que Antonio Costa parece querer cultivar o que, no fundo, assentaria como uma luva num processo eleitoral futuro. Estratégia essa que passa, em grande medida, por um ataque à falta de entendimentos à direita em assuntos chave, como se uma espécie de acordo de regime existisse ou tivesse de existir entre os partidos moderados. Política invertebrada. It’s huge.

Apêndices, o Bloco e o PC parecem ter-se rodeado de quatro paredes sem portas. Com grande parte dos seus acordos cumpridos, resta-lhes uma leve e insustentável existência, refém de apetites e ditames de sondagens.

A história não acaba aqui.

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