Blog

The winter is coming…

O calendário não engana. Hoje é o vigésimo dia do primeiro mês do ano de 2017. 20 de janeiro de 2017 para o leitor mais distraído. Um dia que tal como todas as coisas mais simples da existência terrena não é alheio a ódios ou amores. Dentro de poucas horas, em Whasghinton D.C. tomará posse o 45º presidente dos Estados Unidos da América e é quase certo que a partir deste preciso instante começará, oficialmente, uma nova era. Anunciada há já algum tempo.

É com alguma certeza que se pode concluir que “the winter is coming” ou em bom português: “o inverno está a chegar”. O sentimento de uma certa orfandade política na América e também na Europa associado à incerteza dos novos tempos e à convergência de forças políticas afectas ao trio nacionalismo, isolacionismo e populismo, faz emergir no espectador interessado e sujeito de causas liberais uma profunda sensação de frio, tal como um bom e saudoso inverno. A metáfora diz tudo,  permitindo associar a circunstância a uma espécie de fumaça, uma mancha negra que se espalha pelos céus azulados e dificulta a claridade tão necessária ao comum dos mortais.

Da América à Rússia, passando pelo Reino Unido, pela França, pela Hungria e Polónia, subtrai-se a confirmação de que assistimos à constituição de um perigoso eixo político que agenda sistematicamente para um futuro próximo a destruição daquilo que muitos consideram ser as grandes vitórias do sistema nas últimas décadas, a Democracia Liberal está em perigo de declínio e a Liberdade a ser formalmente ameaçada. Não é novidade para praticamente ninguém que as coisas estão a mudar, ou já mudaram e só agora andamos a colher os frutos de tal desafinamento com a ordem aconselhada, facto é que nos dias correntes o jogo político se faz ao extremo, expondo-se a fraca capacidade dos centros políticos em renovar as suas propostas e a fé do eleitorado. As eleições austríacas foram exemplo disso, tal como as americanas (onde faltou Bernie). E muito provavelmente, como as francesas, onde falta um candidato à esquerda mais consensual, pois está visto que nem Valls, nem Macron (ex-ministro das finanças francês e candidato independente) farão frente aos ventos que sopram da Frente Nacional de Le Pen.

Muito já se escreveu sobre Trump, Putin, Marine, Orbán e tantos outros. Muito se disse, especulou e previu, e muito se discutirá nas próximas horas, dias, semanas e meses. É assim e sempre será. As notas que reservo para este artigo são de fácil entendimento, concentrando-me justamente em dissecar o momento que atravessamos e creio que o frio do inverno será um bom auxiliar para exactidão da análise pretendida. Em novembro passado, os americanos fizeram a sua escolha, disso não há dúvidas e é bom que se parta deste princípio. Tal como os que em maio passado fizeram da opção “brexit” a vencedora no referendo britânico, a escolha foi feita e agora há que lidar com ela, sem hesitações e meias medidas e seguindo a regra de May: “brexit means brexit”. A ideia mais perigosa seria a de querer reverter os resultados democráticos sempre que o sucedido não estivesse em linha com um determinado critério ou causa defendida pela tal maioria silenciosa, para assegurar a respeitabilidade do processo democrático há que valorizar o processo em si é só depois proceder à crítica/análise do resultado, o escrutínio à decisão parte do princípio para o fim, e para tal, o princípio tem de ser dado como válido.

Evidentemente, não há como fingir à tentação da sedutora ideia da maioria silenciosa que para proteger as suas causas adoptaria caminhos já percorridos por regimes de pouca fidelidade democrática. A ideia é sedutora para muitos, e no calor do momento disfarça-se de decisão acertada. Mas não é, muito pelo contrário. A oposição ao eixo político “anti-tudo o que de bom se conquistou nas últimas décadas” far-se-á precisamente pela consumação dos resultados, sejam eles quais forem e venha o que vier, a alternativa é a oposição formal ou informal. Em suma, a única forma de vencer um combate é entrar no combate.

Deixando este princípio bem vincado há que partir para observação dos factos. Está visto que não adianta continuar a exasperar para que Donald abandone o cargo ou seja alvo de impeachment. Os memes e os bonecos continuarão, mas a esperança de que o combate termine na porta pequena terá de acabar. Não servirá de muito adoptar uma postura de permanente oposição superficial. Há que ser consciente da urgência que é retomar o combate pelo lado mais acertado, a disputa de ideias, a perseguição da verdade e correção dos factos. Algo que a propagação das “fake news” dificulta. É da maior relevância perceber os resultados, as causas, os actores e as consequências, pois só estes quatro tópicos formam o quarteto ideal para uma análise fundamental e capaz de produzir cidadãos mais coerentes com os princípios que os defendem.  Com os resultados aceites e validados parte-se ao encontro das causas que expliquem os resultados, no caso Americano, sobre o qual muito se escreveu e muito está por dizer e escrever. Ficou certo que se a votação de novembro apenas dependesse dos votos dos Milennials o resultado teria dado uma volta de 360º graus, menos certo ficou a explicação para os restantes votos, aqueles que deram a vitória a Donald.

Apesar de em menor quantidade dos que os de Clinton, Trump vence por razões várias. Uma candidata incapaz de inspirar e levar a que o eleitorado deposita-se a mais pequena fé na sua capacidade de liderança, a estagnação do nível de vida da classe média ocidental (aspecto que contrasta com os ganhos obtidos pela classe média asiática na globalização), o medo a obstruir a razão, a falta de exigência em aprofundar e dissecar a verdade enunciada pela campanha de Trump, a propagação de um ideal de grandeza e de rejuvenescimento da “old America” e a imperceptibilidade de uma certa parte do legado de Obama.

Não havendo oportunidade de esmiuçar devidamente cada uma das razões, visto que todas constroem entre elas a geografia exacta da explicação da ascensão do fenómeno Trump (não confundir com a ascensão dos movimentos Alt-Rigth, pois são diferentes nas causas/formas e somente se definem mutuamente numa explicação de causalidade), importa deixar a ideia de que o fenómeno de 2008 é semelhante ao fenómeno de 2016, ambos moveram pessoas. O de 2008 moveu a maioria, o de 2016 moveu os descontentes e desacreditados. O inverno que agora chega é a vitória dos desacreditados, dos descontentes, e sobretudo dos que perderam o comboio da Globalização. O sistema produziu a resposta para este eleitorado e o inverno fez-se soar…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *