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“Está morto: podemos elogiá-lo à vontade”

A frase que dá título a este artigo pertence a Joaquim Maria Machado de Assis, escritor brasileiro, mas que retrata bem a tradicional manifestação de benevolência relativamente ao defunto.

 

E o início deste ano tem sido pródigo em falecimentos de figuras públicas, Daniel Serrão, Guilherme Pinto e Mário Soares. Se os dois primeiros passam despercebidos, já a figura de Mário Soares é incontornável, uma vez que a sua história facilmente se confunde com a história de Portugal.

Não irei fazer elogios fúnebres, nem tão pouco contar estórias desprestigiantes para o defunto, pois há que ter e manter o respeito por quem foi, um dia e durante dez anos, o Presidente da República Portuguesa.

 

“Talvez a morte tenha mais segredos para nos revelar que a vida” (Gustave Flaubert). Passado o luto e o tempo necessário para olhar o passado em retrospetiva, começará agora o verdadeiro trabalho dos historiadores para inscrever, nas páginas dos memoriais da nossa história, a referência de uma das figuras mais marcantes dos nossos tempos. E certamente que haverá muito para contar.

 

Mas importa não esquecer os outros defuntos. Guilherme Pinto, um histórico autarca que serviu, até ao limite das suas capacidades, o Povo que o elegeu. E quando viu que já não lhe era possível servir os seus eleitores com a força e a dedicação que merecem, renunciou ao seu mandato, não sem antes deixar uma última lição de como estar na vida pública: o povo merece um Presidente a tempo inteiro.

 

Por fim, Daniel Serrão, um ilustre desconhecido para muitos fora da sua área profissional, como é o meu caso, mas conhecido e respeitado no seu meio e que levou e elevou o nome de Portugal além-fronteiras. Professor Catedrático e investigador no âmbito da Anatomia Patológica desempenhou de forma reconhecida, o seu trabalho chegando a ser escolhido pelo Papa João Paulo II para integrar a Academia Pontifícia da Vida.

Permitam-me terminar este artigo, citando Daniel Serrão: “Com a morte de cada homem termina um universo cultural especifico, mais ou menos rico mas sempre original e irrepetível. O que o homem deixa quando morre – os seus escritos, os objetos culturais que criou, a memória da sua palavra, dos seus gestos ou do seu sorriso naqueles que com ele viveram, os filhos que gerou – tudo exprime uma realidade que está para alem do corpo físico, de um certo corpo físico que esse homem usou para viver o seu limitado tempo pessoal de ser homem.”

 

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