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Nova Página. Muito por Escrever.

 

Virámos, formalmente (e finalmente), a página para 2017. O ano que passou conteve muito de tudo. Um ano de tensões, de temores, de frustrações, de confrontos, de ódios, de angústias, de perdas. Um ano de euforias, de surpresas, de convicções, de otimismos, de resiliência. Um ano extremamente desgastante e, por isso mesmo, fortemente enriquecedor (eu, pelo menos, permiti-me aprender e refletir imenso sobre o fenómeno “Homo Sapiens no Mundo”).  Fosse 2016 um efémero ser humano e não evitaria, feito o balanço global de tudo pelo que passou, um diagnóstico bem corroborado de depressão. Infelizmente, se por um lado é fácil metaforizar quanto ao quadro clínico, a conjuntura do futuro próximo prevê-se manifestamente carente de efetividade terapêutica.

 

Ora bem. Feito o rescaldo, se há coisa que estes 365 dias nos levaram a crer foi que se vivem tempos em que nada é certo. Nada é previsível. Tudo fervilha num ecossistema de tal vulnerabilidade que a mais singela faísca poderá deixar à História e à memória de todos nós um qualquer sobressalto fraturante e antagónico aos alicerces civilizacionais que a aura de paz e consensos pretendeu romanticamente construir no pós-Guerra.

 

Nada garante, muito pelo contrário, que 2017 nos venha a dar tréguas. Será, por um lado, o ano de sentir na pele o impacto efetivo de fenómenos como o Brexit e a eleição de Donald Trump, e por outro uma janela temporal que dará continuidade à sequência de pesados desafios democráticos que tem posto à prova várias nações por esse mundo fora, no seio deste atribulado capítulo da era global e da cooperação internacional marcada ainda pelo epicentro de conflitos que tem sido o Médio Oriente. Por isso mesmo, terá obrigatoriamente que ser um ano não só de resiliência, mas de esperança. Perceber que a natureza imprevisível do recente acumular de acontecimentos reflete precisamente uma janela de oportunidades e determinação para revigorar e reformar os mecanismos que integram os denominadores da complexa equação que é o ordenamento social, político e económico tanto nacional como global constitui o primeiro passo da caminhada que há pela frente. A incerteza deve exaltar a coragem e a motivação necessárias à construção de uma resposta inovadora, revigorada e consistente às problemáticas que ao dia de hoje vão limitando o desenvolvimento harmonioso das sociedades dentro dos modelos concebidos e que acabam por se refletir nas manifestações de intransigência e revolta das gentes para com os seus líderes. É tempo de o famigerado empreendedorismo chegar também à ciência que nos governa.

 

E Portugal não é exceção. Embora por cá se tenha construído a ideia de que se navegaram águas serenas, de tranquilidade e sinergias, imunes ao impacto desconcertante deixado pelo ano que passou, a verdade é que as grandes reformas continuam por fazer e a sustentabilidade por assegurar. Os pressupostos da visão macroeconómica e do incentivo ao investimento, a orçamentação e estratégias do Serviço Nacional de Saúde, a verdadeira metamorfose dos modelos de equação e a otimização de outcomes resultantes da parceria generalizada entre agentes públicos e privados são algumas das vertentes da gestão governativa às quais urge alocar essas respostas.

 

Será um risco acreditar que medidas eficazes sobre estas matérias irão brotar do atual matrimónio das esquerdas, à luz dos indicadores disponíveis. Por detrás do cintilante otimismo de quem está ao leme deste projeto político vigora um crescimento económico residual, uma dívida pública que não conseguiu descer, uma acrescida pressão fiscal (ainda que indireta) e uma castração desorientada do investimento. Será um risco conceber que este é o caminho que vai robustecer uma das economias mais lentas do mundo. E é inevitável reconhecer que é da saúde da macroeconomia, do investimento e das finanças públicas que advém o ótimo desempenho das funções soberanas e sociais do Estado.

 

Cá entre nós essa é, aliás, uma condicionante que nas últimas décadas foi cara à social democracia. Diz-se muito por aí que a feliz conjuntura de liderança verdadeiramente social democrata que coincidiu com o pujante ciclo económico das décadas de cinquenta, sessenta, e setenta do século passado dificilmente será reprodutível e que, nos tempos de hoje, esta é uma identidade governativa que não está patente na maioria dos programas dos partidos que assim se designam. Estarão porventura certos na alegação, mas sou dos que acredita ser possível contrariar a sentença.

E com isto retomo a minha premissa anterior. A incerteza grita por lideranças e ideias fortes. Que em Portugal este possa ser, entre outras coisas, o ano de empreender as estratégias políticas e de mostrar que a social democracia – a verdadeira – pode ir muito além do “poucochinho”. Que lá fora, os valores e inteligência de António Guterres possam começar o quanto antes por inspirar o diálogo que desbloqueie o caminho para um mundo melhor, mais pacífico e coeso.

(E claro, na devida proporção, que o Benfica seja novamente campeão).

 

Venha de lá esse 2017!

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