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2016, um ano para emoldurar

Na generalidade, os finais de ano são sempre uma oportunidade para olhar e dispor em perspectiva as peripécias e demais acontecimentos anuais. Com 2016 não será diferente, com a particularidade que, a partir de 2017, nada será igual. Se, com os anos passados, persistia sempre uma certa ideia de continuidade, hoje, a esperança de uma certa manutenção do status social e político actual já ficou há muito encerrada na clausura nas ambições que 2016 deitou por terra.

Foi assim no quadro internacional, nacional, e, não menos importante, no regional. Sabíamos que 2016 não seria um ano fácil. As imprevisíveis eleições norte-americanas, o referendo britânico, o italiano, a crise de refugiados a intensificar a já emergente ascensão de partidos populistas na Europa Ocidental e o medo a tomar proporções impensáveis. Ao olhar para o quadro dos principais líderes mundiais de 2016, como Angela Merkel, François Hollande, David Cameron, Barack Obama, Matteo Renzi e Dilma Rousseff subtrai-se uma das maiores ironias do ano 2016. De todos, apenas Merkel se poderá regozijar com a hipótese de permanecer à frente dos destinos do seu país. Obama, Hollande, Renzi, Cameron e Dilma estão oficialmente fora de cena: o primeiro atingiu a impossibilidade de se recandidatar a um terceiro mandato; o segundo, esgotado e taticamente desgastado, retirou-se oficialmente da corrida eleitoral para 2017 (mais uma eleição que nos promete uns valentes sustos e possibilidade de ataques cardíacos), deixando que o confronto se faça entre Valls, Macron, Le Pen e Fillon; Renzi e Cameron, além de “fora de cena”, encontram-se certificados como “os falhanços políticos de 2016”, com dois referendos a que se propuseram sem garantia clara de que poderiam ganhar; a última, vítima de um impeachment controverso, decorrente de uma polémica bem conhecida.

Cameron demite-se, dado que apostou a sua credibilidade política no plebiscito, e Renzi, disposto a não aprender com o erro de Cameron, entendeu por bem colocar em jogo a sua governação numa decisão importante como era aquela que se propunha no referendo italiano (e que, caso acedesse à vontade de Renzi, faria de Itália um país com uma maior estabilidade governativa, dando margem real para a execução de qualquer reforma estrutural). Mas não se pense que está tudo perdido.

A demora do Governo liderado por Theresa May – que sucedeu a Cameron à frente da política britânica – em acionar o artigo 50.º do Tratado de Lisboa leva muitos a pensar que, afinal, a tão impensável saída do Reino Unido do seio da União poderá não acontecer (a promessa feita por May era a de que o artigo seria ativado em março de 2017, o problema é que tudo está dependente das negociações que Londres desenvolver com Bruxelas e restantes Estados-Membros, bem como do Supremo Tribunal do Reino Unido que, em janeiro, vai decidir se o brexit tem ou não de passar pelo crivo dos deputados de Westminster. A maioria já disse que o resultado do referendo é para cumprir, e a dúvida está no poder de voto que pode vir a ser dado aos parlamentos da Escócia, Gales e Irlanda do Norte, algo que poderá reconfigurar o resultado).

Em Itália, a situação mostra-se mais animadora. Com a saída de Renzi, a entrada de Paolo Gentilloni no xadrez político facilitará a estabilização do tormento italiano que vai da banca (nomeadamente no caso do Monte dei Pachi, o banco mais antigo do mundo) à ascensão dos perigos do populismo liderado, em Itália, por Beppe Grillo, que promete colocar em causa a permanência de Itália no Euro e na UE. 2016 foi assim marcado na cena internacional – em especial, no espaço europeu, pela reafirmação do nacionalismo exacerbado.

A Alemanha e a França estão perto de seguir o mesmo caminho. Até há pouco tempo, a Froint Nationale liderava as sondagens, algo que só seria alterado com o resultado das primárias à Direita francesa, com a escolha de Fillon como candidato Republicano. Por seu turno, na Alemanha, a extrema-direita continua a sonhar com a possibilidade de ultrapassar a cláusula barreira e, até, de alcançar a liderança. As declarações da líder da AfD (Alternativa para Alemanha), Frauke Petry, despontaram um efeito de apoteose onde seria possível vislumbrar perfeitamente a sua vitória. Algo que não é inédito: basta pensar nos casos da Hungria e da Polónia.

As eleições de novembro passado, nos Estados Unidos, deram (quase como certa) a vitória de Trump, que foi confirmada somente após a decisão do Colégio Eleitoral, oficializada na semana passada. Contra (quase) tudo e contra (quase) todos os que não estavam com Trump, a vitória foi atribuída ao candidato mais populista das últimas décadas. Trump era o candidato para o momento certo, pois só ele soube reunir em si os desiludidos com Obama e os que nunca viram em Clinton uma réstia de esperança. Clinton, a candidata do establishment, eticamente deficitária para qualquer sufrágio, não conseguiu garantir a possibilidade de continuarmos a ver o “progressismo” de Obama à frente da Casa Branca. Trump toma posse a 20 de janeiro. Até lá, ficamos com as dúvidas que os novos tempos auguram.

A incerteza circula de braços dados com a certeza de que tudo pode acontecer.

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