Blog

Os discretos charmes do Populismo

Há, por estes dias, um livro de Michel Houellebecq que vai fazendo todo o sentido quando nos observamos a realidade político-social mundial, em particular a europeia. Em Submissão (Alfaguara, 2015), preconiza-se uma França islamizada, rendida, mergulhada num caos identitário, onde as tensões políticas, raciais e religiosas emergem como um tumor no tecido social. O herói deste livro, François, um homem com uma “consciência política igual a uma toalha de banho”, afectado pessoal e profissionalmente por estes eventos, embarca numa demanda de fé, que terá o seu pináculo numa glorificada rendição à “nova ordem”. Fazendo um exercício simples de extrapolação da ficção com vista a vislumbrar a actualidade, poderse-á dizer que o livro de Houellebecq não nos engana muito sobre a espuma dos dias populistas que vivemos nesta Europa de fragmentos.

 

Desde o agitado Brexit, passando pelas altas votações de Hofer na áustria, a FN francesa ou o Podemos espanhol, o populismo percorre todo o azimute político, para se situar normalmente nos seus extremos. Na origem imediatista deste fenómeno transversal, diríamos que as crises das dívidas soberanas ou movimento migratório dos refugiados são, em grande parte, respostas a este crescendo populista. Contudo, e numa análise mais estrita, podemos apontar falhas às políticas mais recentes – englobando a grande máquina burocrata europeia – num aparente confronto permanente entre decisões soberanas de cada estado e o órgão central Europeu. Se, por um lado, os eleitorados nacionais desejam ver as soluções plasmadas numa resposta articulada a nível europeu, por outro não admitem facilmente a transferência de soberania para Bruxelas. Um problema complexo e que dista desde os tempos da Paz de Vestefália.

 

E é aqui, precisamente, que Houellebecq nos tenta transportar a um outro nível de entendimento, tendo em conta uma certa despersonalização do homem político, tornando-o amoral, despreocupado, de certa forma lobotomizado e descaracterizando a malha social tal como a conhecemos.

 

Décadas corridas e o que vemos quando olhamos para os partidos considerados fundamentais nos diferentes arranjos governativos nos principais aparelhos europeus? Uma tendência galopante em torno de uma despreocupação ideológica, polvilhada de realpolitik aqui e acolá, assente em anos de expansão económica desenfreada e crescimentos aparentemente sustentados. E estes factos tanto valem para partidos do centro esquerda como do centro direita. Do PP espanhol ao PASOK, do Labour à UMP. A heterogeneidade intrínseca desses partidos dissolveu-se e criou, em certa medida, campo para uma autonomização embrionária destes movimentos, dando voz e antena, modelando discursos e aproveitando um certo lado emotivo que estava cativo.

 

Onde antes cabiam nacionalistas, marxistas, representantes sindicais, hoje, hermeticamente fechados, os grandes partidos sonegam vozes dissonantes, permitindo precisamente a descaracterização do discurso, que apanha na sua rede as massas e as molda em torno de um fim imediatista – a quebra do status quo. A elitização da política e a sua cristalização ideológica, manifestadas num certo vácuo discursivo criou este caldo de cultura perfeito para que agora, agitando bandeiras da raivas e horrores, os movimentos populistas seduzam uma importante parte dos eleitores, aproveitando um “ambiente de resignação” de que nos fala Submissão.

 

Urge, neste sentido, uma certa recalibração dos partidos tendo em linha de conta as suas políticas-base, num “regresso ao passado” histórico fundamental das suas convicções. Até agora o cerrar de fileiras do establishment só engrandeceu o Populismo como doutrina. Qualificar os seus potenciais votantes também não contribui para uma mudança de opinião.

 

Caso contrário teremos a pior das visões em Submissão: uma substituição do património moral do ser individual, da sua consciência político-social, por um bem-estar ilusório que não passa senão de um disfarce distópico dos nossos tempos.

 

A visão de Houellebecq é assim premonitória do estado quase actual na política europeia, à semelhança de Raul Proença, nos idos do século passado, e dos “fascismos que aí vinham”. É, pode dizer-se, um tributo a uma certa capitulação moral e política dos europeus.

 

Uma página aberta dedicada à esquizofrenia vigente.

 

Eliot costumava dizer que o mundo acabaria não com um estrondo mas com um gemido.

Este pode bem ser o gemido da mudança.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *