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Da era da “pós-verdade” ao método científico

Terá sido esta “nova palavra” a eleita pelos dicionários de Oxford para descrever o ano que o calendário nos indica estar prestes a cessar. De acordo com o que a mesma pretende caracterizar, dir-se-ia que face a esta imposição decorrente de convenção social de “mudar de ano” (ainda que surgindo do decorrer dos ensinamentos da Astronomia) estaria na moda chegar aos primeiros dias de janeiro próximo e pretender combater o “establishment” permanecendo no “ano velho” apenas porque emocionalmente 2016 tinha sido um ano simpático, ou porque estaríamos a desenvolver um qualquer apego a dezembro (perdeu a maiúscula, mas não a sua mística) ou ainda, e mais provavelmente, porque o desconhecimento do que um (inteiro!) ano novo pode trazer consigo é suficientemente assustador para impor pelo menos algum respeito. O medo e a ignorância, especialmente a que decorre das respostas simplistas é realmente um inegável fator de motivação, mas não me parece que cheguemos a tanto: uma coisa são eleições e referendos, outras totalmente diferente seria dispensar o “Reveillon”!!!

 

Mas, na verdade (a ante e a post) serão razões muito próximas das vindas de referir aquelas que fazem com que sejam atualmente muito comuns as experiências na política. A desilusão ou o desespero proporcionado pelas respostas clássicas – bem mais objetivas e muito menos redutoras – tornam muito sedutor e até praticamente irresistível o canto de sereia das derivas e a ascensão de muitos dos contemporâneos ismos” : o extremismo, o fanastismo e o populismo (se houvesse uma palavra que os traduzisse a todos, provavelmente seria concorrente de peso a vencer “pós-verdade” como palavra do ano!)

 

E não há nada de pouco democrático nisso…quer dizer, não há nada de pouco democrático se não entendermos que a Democracia só é boa só quando leva aos resultados que esperamos. Porque ao contrário, inverte-se a tirada de Churchill e passa mesmo a ser a melhor com exceção de todos e qualquer outro regime que levasse a que o Reino Unido permanecesse ou Trump não fosse eleito.

 

 

Ter tendência a deixar que o sentimento impere sobre a razão, “experimentar” coisas diferentes, anunciar aos sete ventos que há uma nova-forma-de-fazer-qualquer-coisa é uma tentação. Não esquecer aquilo que nos custou – mesmo que se entendesse ser necessário, mesmo que se comungasse que era melhor agora do que pior e/ou mais grave depois. Ou alguém pensa que é mais fácil dar uma segunda oportunidade a algo já experimentado do que fazê-lo pela primeira vez quanto a algo que ainda não testamos ? Alguém gosta do tratamento quando o mesmo é agressivo, mesmo quando inegavelmente faz bem (nem todos o serão, é verdade).

 

 

O pior é que o método científico implica que após a experimentação de qualquer tese ou hipótese mais emocional se siga a observação dos resultados, recuperando-se a objetividade. E é por isso que na Grécia, a Nova Democracia já esteja (alegadamente) mais de 15 pontos à frente de Tsipras. É também por isso que de Bruxelas e Estrasburgo e Berlim e Paris, não houve qualquer hesitação em aproveitar a oportunidade de “comprometer” com o projeto europeu partidos mais eurocéticos, eurodesconfiados ou eurocríticos (uma junção destas palavras também daria finalista para a Palavra do Ano, parece-me) sendo que estes mais cedo do que tarde irão mostrar-nos uma falsa crispação para se libertarem dessa fama de domesticados que na verdade só incomodou os idealistas genuínos (que são minoria) e aqueles que já estão a ver o resultado da experiência, portanto os pragmátivos (que abundam).

 

Mas, na Política ter razão antes do tempo, normalmente é estar errado! E, NA (pós-) VERDADE quero apenas desejar a todos um ótimo Ano de 2017!

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