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TTIP: o debate local que ficou por fazer

TTIP, ou na tradução portuguesa, Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, é um tema de maior importância que até agora passou ao lado de grande parte da opinião pública. O seu aparente secretismo terá alguma culpa, derivando numa monopolização do debate pelo activismo, e sobretudo, apenas pelo que tem de mau.

A inevitável globalização de que todos usufruímos tem como consequência que bens e serviços circulem pelo mundo a uma velocidade muito superior aquela a que nos apercebemos. Os custos de transporte incorporados num objecto importado de venda massiva muitas vezes ficam abaixo de 10 cêntimos de euro. Muitos dos consumidores, apesar do fervoroso patriotismo, não abdicam de uma boa promoção (importada) em detrimento de um Made in Portugal. No mundo consumista a que nos permitimos, as aparências e o sentido de posse falam mais alto que a qualidade e a sustentabilidade.

Daí, independentemente do fervor contra as “gigantes” multinacionais, não pestanejaremos no momento de ir a correr aos Saldos ou escolher produtos Económicos (low cost). A consciência selectivamente ocultará a evidente percepção de que qualidade se paga; de que é a pequena indústria que alimenta o emprego local; e de que quando maior for a empresa, menos impostos pagará (em proporção) para patrocinar o estado de bem-estar social.

Ainda assim, o TTIP é apenas uma ferramenta de comercial que visa facilitar e aumentar as trocas comerciais entre dois poderosos blocos económicos (UE/EUA). Até pode ser que o nosso egocentrismo ocidental nos leve a dizer que tudo está bem como está; nada de aventuras com esses americanos que não respeitam as nossas instituições, nem segurança alimentar, nem modelo de desenvolvimento. No entanto, não devemos ignorar que o resto mundo continua em movimento, e a crescer a uma velocidade muito maior que nós na Europa. A América Latina a seu tempo se organizará e os países asiáticos começam a fazer sentir a sua vontade de liderar a agenda mundial. Existem 625 acordos regionais de comércio registados na Organização Mundial de Comercio, e os EUA acabam de completar o TPP (Parceria Transpacífica). O TPP, a par com o poder económico da China, muito contribui para um desvio no entro eixo do poder mundial: de tradicionalmente Atlântico, para cada vez mais no Pacifico. Contabilizemos o produto interno bruto da India, ASEAN e China.

Dito isto, e ignorando as paranóias habituais de saída do Euro ou da UE, vale a pena referir que o debate local ficou por fazer. Dificilmente estaríamos ou estaremos preparados para a entrada em vigor de um tratado deste tipo, seja para o melhor ou para o pior. Não aproveitámos a oportunidade para nos posicionar no mundo, para sentir os desafios da crescente globalização da qual não estamos excluídos, nem da qual nos queremos excluir.

Por opção, medo ou negligência, não assumimos o desafio que tal acordo traria para a pequena escala das nossas empresas. Não reflectimos de que forma as nossas pouco competitivas empresas iriam enfrentar as menos reguladas indústrias americanas, nem de como as nossas PMEs regionais se teriam de se adaptar a maior concorrência. Mas também não discutimos como poderia ser apetecível levar a nossa qualidade mais longe, tirando partido da cadeia de valor em aberto, e de como beneficiar da escala num mercado alargado em algumas centenas de milhões de consumidores. Para tal, seria necessário estar preparado para investir, assumir o atraso na consolidação das nossas infra-estruturas e olhar para os empresários locais como os verdadeiros promotores do desenvolvimento económico. O debate ficou por fazer, a estratégia ficou por definir.

Bem sei que é difícil prescindir do centralismo e do protagonismo autárquico, e ter abertura do espaço político à sociedade, mas o futuro não vai ser complacente com quem se acomoda. Não devemos ignorar que existem outros povos com ganas de crescer, dar suor e lágrimas para que as gerações seguintes vivam melhor. Sentimento esse que perdemos na luta inter-geracional que hoje vivemos, que a nossa sociedade blinda com os direitos adquiridos e com o elevado desemprego jovem. Temos de deixar os monólogos e de abraçar o improviso. Ao invés, devemos acarinhar a mudança e investir tempo a discuti-la, nem que seja apenas como exercício intelectual.

PS: Depois do acordo EU-Canadá (CETA) ter ficar na ordem do dia pelo bloqueio do parlamento regional belga da Valónia, estas considerações retomam a sua premência. Acordos como este continuarão na agenda, sejam estes, do Mercosul, ou outros mais…

*Este artigo apenas vincula a opinião do seu autor.

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