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Notas mentais sobre a fumaça dos dias…

A grande certeza dos nossos dias é que o Mundo está numa evidente espiral de incerteza, ou por outras palavras, está coberto de fumaça. Um nevoeiro cinzento e denso que ofusca a clarividência desejável. Uns chamam-lhe “Sociedade de Risco”. Para Ulrich Beck, um dos nomes maiores da sociologia alemã, a sociedade contemporânea era marcada pela existência e convivência com o risco permanente, tanto de ordem ambiental, como política ou até mesmo social e económica. A incerteza fazia notar, à luz da teoria beckiana, uma circunstância causada pelo risco de algo acontecer, a possibilidade da catástrofe. Já para Bauman, Zgymunt Bauman, referência da sociologia polaca e para quem contemporaneidade não é nada mais, nada menos que a liquidez das relações humanas e diluição de valores e padrões comportamentais. A dureza e rigidez (automaticamente, a previsibilidade dos acontecimentos) desapareceria para dar lugar à efemeridade, ao instantâneo proporcionado pela desenvolvimento tecnológico e liquidez das ligações humanas e padrões sociais. Provavelmente, duas das mais significativas teorias sociológicas que atestam e fundamentam o mundo contemporâneo com base na incerteza e na dúvida.

Longe vão os tempos em que o xadrez da política internacional, ou até mesmo o pequenino mundo da política nacional, não dava aso a dúvidas, sabíamos quem eram os maus e os bons. Só a prespectiva podia fazer mudar tudo. O Mundo bipolar que começara a cair em 1989 com a queda do Muro de Berlim, e que cuja a queda passa a efectiva em 1991 com a dissolução da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) às mãos de Gorbachev, o senhor simpático com um incomoda mancha na nuca e a quem Reagan (Presidente EUA) pedia para deitar o muro abaixo (antes de 89). O desaparecimento do mundo a duas cores e consequentemente o fim da guerra fria foi marcado pela entrada de um novo pólo regional na cena internacional, o Médio Oriente passou a ganhar palco e gerar preocupações sem fim.

A sede do Ocidente pelos litros de petróleo que países do Golfo e Norte de África pareciam transbordar e a escola do “Build Democracy” orientava a estratégia ocidental para o Médio Oriente. Naturalmente que ações como as que foram levadas a cabo no Afeganistão pela URSS, Iraque pelos EUA (2003) e na Líbia pela “comunidade internacional” cometidas à revelia de interesses pouco percetíveis e sem a mínima preocupação com o pós-conflito. O caso do Afeganistão é sobejamente diferente, não deixando de ser ocasião particular para o aparecimento da Al-Quaeda. O Estado Islâmico só aparece depois do fim da guerra do Iraque e pela desestruturação das forças militares iraquianas (uma larga percentagem de combatentes do Daesh são antigos militares iraquianos). Não podendo deixar de referir que o fim de um qualquer tipo de ordem política na Líbia contribuiu em muito para o reatar de um problema em expansão. Mas a Líbia, o Iraque, o Afeganistão ou até mesmo o Vietname (com outras circunstâncias e um player diferente daquele que vai para o Iraque) não foram suficientes para nos alertarem para a necessidade planeamento e rigidez de atuação. Em 2013 o conflito entre o regime de Bashar-Al Assad e os rebeldes apoiados pelos EUA já num último momento do confronto, permitiu uma entrada do jovem Daesh no território Sírio. Hoje, há poucos que duvidam que os rebeldes que há uns anos atrás não passavam de pequenos revoltosos contra o regime opressor do presidente sírio não tenham ligações aos bárbaros militantes da causa islâmica radical. O Médio Oriente continuará a condicionar a política externa do grande eixo EUA-Rússia-UK durante muitos longos anos, a não ser que o player principal seja a Arábia Saudita, como é caso da guerra esquecida que dura há pelo menos mais de 2 anos, entre os Sauditas e o Yemen. Facto de que muitos poucos falam, mas está neste momento a acontecer.

Se no Médio Oriente a circunstância é a da incerteza e falta de estratégia, no que ao extremo oriente diz respeito, a situação não muda muito. Israel e Palestina perdurarão em matéria de conflito, a contagem às tentativas de paz é longa. Mas mesmo assim, continua-se a cometer disparates desnecessariamente, ainda há uns dias atrás a Unesco aprovou formalmente uma resolução promovida por países árabes em nome da proteção do patrimônio cultural palestino. Segundo Israel, o decreto nega a milenar ligação entre os judeus e a cidade ao afirmar que o Muro das Lamentações, local sagrado para a religião judaica, bem como todo o Monte do Templo (do qual o Muro faz parte) são sagrados “apenas para os muçulmanos”. E atente-se, estamos a falar da UNESCO. Perigoso mesmo seria pensar que situações do género não tem repercussões no conflito.

Em Portugal também assistimos ao momento de trapalhice ideológica, decorria no parlamento a votação de pesar pela morte de Shimon Peres (ex-PM e Presidente de Israel, e Prémio Nobel da Paz) e os partidos à esquerda do PS (os socialistas ainda souberam preservar a decência e a sobriedade intelectual) surpreendiam mais uma vez pelo seu obscuro pensamento ao votar contra do voto de pesar. Tivessem a mesma coragem para criticar casos como o da Venezuela, mas não, Temer no Brasil e Maduro sem direito a crítica. Há uma certa duplicidade de critérios que não vislumbra “bom senso” na esquerda à Portuguesa.

Mas retomando a mensagem original uma vez que a realidade portuguesa contraria em boa parte a incerteza dominante no globo, dado que nos últimos tempos tem-se mostrado bastante previsível, com Costa ao leme do barco sem rumo à vista. O mesmo não se pode dizer das “terras do Tio Sam”, a América surpreendeu e mostrou que ainda se faz presenciar pelo “bom senso”, Hillary prossegue agora com uma margem confortável, Trump e o seu staff já vislumbram a derrota. Fogo de vista, a melhor forma para qualificar o aparecimento de Trump. A melhor parte disto tudo é que mais uma vez vamos assistir à fundação de um pedaço de história, depois de 2008, vemos agora uma mulher a assumir a presidência dos EUA. Certezas há poucos e dúvidas há muitas, mas não há nada mais certo que o “politicamente correto” e um certo status. “God save the Queen,  “The Establishment” and the “UK after Brexit”.

*Este artigo apenas vincula a opinião do seu autor.

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