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Quero os Bairros todos

O clássico jogo do Monopólio, com o qual se passam tardes inteiras de dias chuvosos, há décadas que faz as maravilhas das várias gerações. Jogo há muito anos e acho que sou bom. Ainda assim, tenho a certeza que não teria qualquer hipótese se um dia tivesse o azar de calhar a jogar contra um taxista. Faz-me lembrar aqueles amigos que temos, que fingem lançar os dados, quando estamos distraídos, e sai sempre o número certo para calharem na Casa Partida e receberem 400€ num piscar de olhos, para depois voltarem a jogar e comprarem os bairros mais caros. Sempre que somos nós a querer comprar uma casa, é batota. Sempre que conseguimos fazer um bairro, é ilegal. Eles querem sempre os bairros todos.

É um bom resumo da polémica que envolve a Uber e a ANTRAL (Associação Nacional dos Transportes Rodoviários em Automóveis Ligeiros). A minha primeira cadeira de Microeconomia marcou-me muito e deu-me uma das lições de vida mais importantes, sobre a qual gostava que todos refletíssemos, antes de mais. Tem a ver com Monopólios, como o jogo, e mercados de Concorrência Perfeita. No primeiro há uma grande empresa que lida com toda a oferta do mercado. Como há muita procura, é claro que estabelece os preços que bem entender, já que é a única a oferecer o produto. No caso da concorrência perfeita, há várias, que oferecem produtos semelhantes, que competem, concorrem, entre si, o que faz automaticamente baixar os preços, beneficiando assim o consumidor. Devia estar claro para todos qual o modelo a adoptar por uma economia que se quer dizer desenvolvida, não?

Os táxis lidam muito mal com este segundo modelo. Após a criação da Uber em Portugal, e mais tarde com a presença da empresa espanhola Cabify, inovou-se tecnologicamente no mercado dos transportes em Portugal. Passou-nos a ser possível chamar um meio de transporte com um mero toque numa aplicação do nosso smartphone, facilitando a nossa vida incalculavelmente. Quando há um progresso tecnológico desta magnitude, que torna uma empresa muito mais competitiva que as restantes, as menos desenvolvidas tendem a gastar algum dinheiro em pesquisa para tentar igualar ou até superar a empresa pioneira, para se tornarem tão ou mais competitivas que ela. Não foi o caso dos táxis. Este serviço, mostrando uma mentalidade retrógrada e incapaz de se adaptar aos novos tempos, atacou o problema focando-se na empresa concorrente, tentando eliminá-la. Nada mais errado.

Depois de uma decisão vergonhosa do Tribunal Cível de Lisboa, que deu razão à ANTRAL, surgiu um autêntico balde de água fria, com o Tribunal da Relação, após recurso interposto pela UBER, a reconhecer a insustentabilidade da decisão do tribunal de primeira instância, por falta de uma linha de raciocínio lógica. O que se sucedeu? Mais greves, mais manifestações, mais polémica, à boa moda portuguesa, continuando a não existir uma mente brilhante que decidisse que o mais correto a fazer era corresponder às necessidades dos consumidores que, aliás, vão colocando a Uber cada vez mais destacada no topo das suas escolhas.

No entanto, mais preocupante do que esta falta de visão, são as constantes exigências trapalhonas que os taxistas vão apresentando e que os vão fazer afundar ainda mais nas escolhas dos consumidores portugueses. Ora veja-se: após a proposta de regulamentação do Governo para estas novas empresas, mais que justa, diga-se de passagem, vem a Federação Portuguesa do Táxi exigir que se aumentem os preços dos táxis em 20%, durante os meses de Julho e Agosto, a subida da bandeirada para 6 euros no Natal e no Ano Novo e ainda uma tarifa especial para quando transportam mais que 4 pessoas no mesmo carro.

Peço ao leitor que raciocine comigo. Temos uma empresa tecnológica, a fazer sucesso, com preços competitivos e a gradualmente conquistar mais e mais mercado. A resposta correta da empresa concorrente seria qual? Ou melhoramos a qualidade dos nossos serviços ou baixamos os preços. Mas isso é para quem tem bom senso. Os taxistas, mantendo um serviço que se tem revelado no mínimo medíocre, com casos de engano ao cliente a acumularem-se nas gavetas, queixas de mau cheiro e má condução, vêm ainda aumentando os preços. É de loucos. Poderia estar a exagerar e com teorias da conspiração infundamentadas, não fosse a Uber ter passado para o topo da App Store durante a recente manifestação dos taxistas.

O mundo é globalizado e está em constante evolução. Sinal dos novos tempos. Fernando Pessoa dizia “Para que havemos de ir juntos? /Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. /Quero ser sozinho. /Já disse que sou sozinho! “. Nunca pensei que os taxistas se inspirassem tanto na poesia portuguesa.

*Este artigo apenas vincula a opinião do seu autor.

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