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Habemus Secretary-General!

Batam em tachos e panelas, toquem os sinos a rebate, saia fumo branco da chaminé da Capela Sistina, corram pelas ruas a anunciar: António Guterres será o próximo secretário-geral da ONU! Eis que finalmente a mais importante organização mundial volta a ter líder, o nosso António Guterres, ex-primeiro ministro de Portugal e beirão de gema!

Acho importante fazer duas notas prévias a este texto opinativo: primeiro, que como português e orgulhoso beirão, não poderia estar mais satisfeito com esta eleição de António Guterres para tão simbólico cargo. Segundo, que não sou de todo o maior adepto de Guterres e da sua forma de ser e estar na política. Por isso não deixo que a alegria me contagie e me ofusque o sentido crítico. Todos parecem ter-se esquecido da pesadíssima herança que António Guterres deixou ao nosso pais, o défice altíssimo com que encerrou os seus 6 anos de legislatura mas sobretudo o esbanjar de dinheiro e facilitismos que pautaram quase sempre as atuações dos seus dois governos. Percebo, no entanto, que o tempo é de celebração e por isso prometo ser brando nas minhas palavras sobre o nosso antigo primeiro-ministro. Além disso, como sabemos, Guterres é um homem de uma inteligência ímpar e tanta falta fazem Homens inteligentes no panorama político português.

No passado mês de Março tive o privilégio de assistir a uma palestra dada por António Guterres aqui na cidade universitária de Paris. O teor do seu discurso tratava sobre o movimento das populações no século XXI e abordava, sobretudo, o problema dos refugiados que tentam aceder à Europa. É indiscutível que Guterres é a pessoa mais bem preparada deste Mundo para falar sobre o assunto, depois dos seus 10 anos como Alto-comissárioo para os Refugiados das Nações Unidas. A experiência acumulada neste cargo fazem dele o maior especialista no drama por que que passam milhares (talvez milhões) de pessoas quando têm de deixar as suas casas e países para poderem sobreviver a uma guerra tão injusta. No entanto, não posso deixar de notar que o mandato de António Guterres foi marcado sobretudo pela tranquilidade e “quase” inexistência de problemas sobre os quais se teve de debruçar. Sem lhe retirar qualquer mérito, o facto é que  António Guterres deixou o cargo quando um verdadeiro fenómeno de refugiados e movimento massivo de população assolou a parte do Mundo que gostamos de chamar de “ocidental” ou “evoluído”. Quando o verdadeiro significado da palavra “refugiado” invadiu a Europa, já António Guterres não era UNHCR e não podia fazer os seus discursos profundos e emocionados com que sempre tentou inspirar o Mundo. E de facto a palestra decorreu um pouco à imagem do que foi a década de alto comissariado de Guterres: num francês irrepreensível, falou durante mais de uma hora e meia com uma sabedoria quase de avô, num discurso carregado de sentimento e mensagens de pesar pela situação do Mundo atual mas também votos de muita esperança nas gerações futuras e nas capacidades de inovação que os jovens apresentam e podem colocar ao serviço da resolução da crise de refugiados. Seguiu-se mais outra hora e meia de questões às quais António Guterres respondeu sempre com a maior cordialidade e profissionalismo. Nunca entrou em discussões mais duras e soube sempre deambular as questões mais complicadas. No final, a pergunta que pairava na mente de todos era se alguma coisa daquilo que tínhamos ouvido ali poder-nos-ia ajudar a nós jovens a resolver os grandes problemas da nossa atualidade, responsabilidade essa que a geração anterior tão gentilmente fez o favor de nos transmitir. Será que algo do discurso de António Guterres poderia ser colocado em prática para nos ajudar a resolver o problema dos refugiados? Talvez não, mas também me parece que ter essa esperança era completamente utópico. O que de facto melhor retivemos daquela palestra foram as palavras finais do jornalista moderador dizendo que a próxima vez que entrevistasse António Guterres desejava já lhe poder chamar senhor Secretário-geral das Nações Unidas. Isto a mais de meio ano do processo de eleição para a ONU…

É precisamente sobre o processo de eleição para o Secretário-geral da ONU que gostava agora de me debruçar. Aquilo a que assistimos durante os últimos meses só pode ser classificado de ridículo. Tendo acompanhado mais atentamente esta eleição (não tenho memória nenhuma da eleição de Ban Ki-moon), pude apreciar todo o aparato que envolve a eleição para o maior cargo diplomático do Mundo. Esta eleição é uma espécie de jogo do amigo secreto: durante as primeiras 5 rondas de votação, os participantes vão premiando quem mais gostam e penalizando quem menos lhe apraz, sem nunca ser revelado a quem pertence cada voto. Ora, é como se alguém tivesse sorteado um amigo secreto e, sem poder revelar a sua identidade, vai oferecendo pequenas prendas e pistas para agradar ao amigo secreto. À sexta ronda, então finalmente vamos começar a colocar as cartas todas na mesa e revelar quem é o nosso amigo e escolhido para liderar a ONU. E eis que nesta altura entram outros jogadores em cena, novos amigos potenciais para confundir ainda mais as regras do jogo, numa espécie de aumento de entropia propositada para animar algum tédio provocado pela lentidão do processo. Felizmente, que estas súbitas candidaturas de ultima hora não tiveram sucesso e o escolhido foi o Homem melhor preparado para o cargo, o nosso ex-primeiro ministro. É de ressalvar que a candidatura de Kristalian Georgieva surgiu com o declarado apoio da Rússia, facto que não se veio a materializar no momento da votação dos membros do conselho de segurança da ONU. Lá está, uma forma de ludibriar por parte da Rússia, dando sinais falsos e que no momento da verdade se transformaram num “afinal o meu amigo não és tu, o meu escolhido é outro”…. No entanto, desengane-se quem acha que o processo termina aqui. No dia a seguir à sexta votação houve ainda lugar a um sempre tao poético e contemporâneo momento de aclamação de António Guterres. Fica agora então a faltar a aprovação do Conselho Geral da ONU. Temos assim matéria para próximos episódios.

Numa altura em que o Mundo pede medidas urgentes, pragmáticas e firmes para a resolução dos grandes problemas da nossa atualidade, eis que a ONU, organização criada precisamente para fazer face aos grandes conflitos da humanidade, nos brinda com um processo longo e moroso para a eleição do seu líder. Eis que a eleição para o cargo supostamente mais importante no Mundo do ponto de vista político, se encontra envolta numa espécie de fantasia aristocrática digna dos melhores clubes de gentlemen da Londres dos séculos XIX e XX. Como alguns dos media portugueses noticiaram, o processo de escolha para Secretário-geral da ONU não tem muitas regras escritas. Esta eleição em tudo se assemelha a um conclave para a eleição de um novo Papa: o suspense, o secretismo e muitas vezes a falta de transparência. Mas talvez seja mesmo isso que representa a figura de Secretário-geral das Nações Unidas: um segundo Papa. Uma figura muito paternal, que transmita bondade e sabedoria. Que saiba proferir discursos inspiradores mas que não tenha forçosamente de entrar em conflito com alguém nem tomar uma posição mais assertiva. Todas estas características nos fazem imediatamente pensar num só homem e ai percebemos imediatamente que António Guterres  nasceu para ocupar o cargo de Secretário-geral da ONU.

Para terminar, acho que vale a pena olhar para aquilo que significa a eleição de Guterres no nosso Portugal. Para isso, recuperava as palavras do meu companheiro Tiago Barata Lucas que escreveu: “Marcelo e Guterres, amigos de infância, cúmplices de sempre, chegam aos cargos que almejaram no mesmo ano”. Tal lembra-me um provérbio francês que aprecio particularmente: « Tout vient à point à qui sait attendre », cuja tradução mais próxima em português seria o típico “quem espera sempre alcança”. É interessantíssimo ver os percursos que ambos fizeram para chegarem aos cargos que sonharam uma vida inteira. E, quanto a mim, é ainda mais interessante pensar que talvez não tenham sido percursos assim tão distintos. Ambos sempre mostraram saber muito bem o que pretendiam a curto-médio prazo, ambos se souberam colocar em posições de mediatismo muito favoráveis aos seus intuitos, sempre utilizando discursos suficientemente neutros e simpáticos, de forma a nunca tomar uma posição efetiva e que lhes pudesse custar as desejadas eleições. Quando, em tempo de eleições primárias no PS, António Costa e António José Seguro convergiam no nome de António Guterres como candidato socialista a Presidente da República portuguesa, nunca assistimos a grandes manifestações públicas de interesse de Guterres para o cargo. Já adivinhava, talvez, que a caminhada lhe poderia reservar outro tipo de voos… Há de facto que aprender com quem anda nesta vida há muito tempo. Finalmente, uma última palavra sobre as reações e comemorações do Partido Socialista à vitória de António Guterres. A exultação e alegria com que António Costa interveio depois de conhecido o resultado da votação do Conselho de Segurança deram a ideia de que o PS se agarra a esta vitória como se ela fosse sua. Mais interessante são as palavras do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, que classificou a vitória de Guterres “não apenas como uma vitória, mas uma vitória clara e inequívoca”. Palavras no mínimo interessantes do número dois de uma governação cuja experiência em “vitórias claras e inequívocas” é, na melhor das hipóteses, poucochinha.

*Este artigo apenas vincula a opinião do seu autor.

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