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António Costa virou costas e deu à costa

Porque isto de andar com a geringonça às costas é uma grande chatice.

1. Costas largas

António Costa tem um problema. Vários, dirão alguns. Mas há um que se destaca pela fractura que poderá originar no ideário socialista. Ou já causou. O acordo de incidência parlamentar que teve a originalidade de juntar três partidos desavindos e desalinhados ideologicamente desde sempre, corre o risco de destruir a matriz ideológica e afundar o partido socialista numa dispersão lamacenta.

António Costa é o único responsável por uma fusão inédita e estranha aos olhos dos eleitores e que encerra em si mesmo a originalidade de amarrar três partidos a um apoio ao governo socialista que daí brotou. Estranho porque, na verdade, este matrimónio tem o condão de surgir na reação ao segundo governo de Passos Coelho e também porque casa três programas eleitorais completamente distintos. Os arautos da geringonça dirão que das diferenças se fez unidade pro bono, mas uma análise mais seria levanta outras questões mais sérias.

2. Costa encosta

António Costa pega num partido que ele próprio fraturou (“porque fizeste isto, António”, dizia Seguro), emocionalmente dividido e fatigado e empreende uma nova vaga – uma espécie de terceira via à portuguesa, só que sem via e sem entusiasmo (entusiasmo mesmo só na cara de Centeno). A ressaca foi grande e inesperada, provocada por uma derrota eleitoral assaz humilhante, dados os objectivos traçados – como pudera Passos ganhar duas eleições consecutivas? – pôs Costa a pensar (nada de coligações negativas, diria). Capitalizando a esperança, arrasta, em negociações largas, os dois partidos à esquerda numa coligação só superada em estranheza pelas alianças 1 “não pasteurizadas” na Grécia. encosta à esquerda, sobe nas suas costas, e consagra o seu caminho tosco rumo ao poder.

3. Para trás das costas

Para além de todas as reflexões há uma que importa debater com mais relevância. Trará esta aliança casuística uma dissolução programática socialista no ideário das esquerdas à esquerda? Ou será este mais um prego no caixão da dispersão ideologica há algum tempo notado nas esquerdas europeias?

Para tentar responder a estas questões há que recuar ao início do Séc. XX, onde os partidos de centro esquerda europeia se uniam em torno da defesa de um estado social, chamando a si a defesa de questões centrais que se estendiam desde o direito laboral à saúde universal e gratuita. Não querendo fazer aqui uma resenha histórica, os caminhos divergentes que os diferentes partidos da família socialista seguiram nos anos mais recentes, desde o New Labour de Blair ao PSOE de Zapatero, mostraram uma quebra com a linha comum do início de século: mais estado, menos estados ou que estado? – no exemplo Socratino português.

A matriz identitária do PS já era discutida abertamente no inicio deste século porém, não esquecendo a herança tóxica (programática) do governo de Sócrates, Antonio Costa ter-se-á sentido agora com o à vontade suficiente para empreender uma viragem Às esquerdas, sem que isso chocasse grandemente as suas bases. A prova esta na reação tímida sem continuação de alguns dos membros não alinhados.

4. Nas costas dos outros

A aliança “poder pelo poder”, esvaziando o ideário e submetendo o seu programa a escrutínio das esquerdas radicais torna a cartilha socialista numa manta retalhada. Pode-se perguntar: qual é o programa eleitoral que serve de base à governação? Quantas folhas já foram reescritas e rasgadas? Andará Costa a dar uma nova roupagem a Marx e Engels. Andará armado de um estilo panfletário à boa maneira bolchevique? Ninguém sabe. Ora manda o Bloco, ora avisa o PC – este PS encurralado na Assembleia e condicionado na governação parece um autentico cata- 2 vento de humores. Joga-se tudo na aparência da bondade na governação, nos sorrisos optimistas e no namoro político. Não se sabe quem engana quem, quem estica a corda ou quem a rompe no momento certo. Uns jogam a sobrevivência, outros afirmam existências enquanto outros se fazem passar por marionetes conscientes. Um jogo difícil de controlar mas que, correndo o risco de ser bem jogado tem efeito nefasto de fazer implodir ideologicamente o socialismo, ou o que resta dele, no PS. Alguém preocupado?

*Este artigo apenas vincula a opinião do seu autor.

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