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Sanções, calor, brexit e “galpgate” – um cocktail de verão

Verão tem sido sempre sinónimo de Silly Season. Um tempo próprio e adequado à divagação e ao prazer de vermos situações fora da orla do costume ou do “habitual”. Coisas invulgares e impróprias acontecem por esta altura e pelas quais há uma certa tendência para culpar o calor, nada que não nos é estranho. Esta Silly Season não escapou ao registo de anos passados e o Mundo tem confirmado uma tendência que há já alguns tempos vinha a evidenciar. Definitivamente, os dias de hoje revelam-se a uma larga velocidade, lugares interessantes para o estudo e crítica das horas futuras e dos gritos passados.

Se uns opinam que o Mundo se transformou num lugar perigoso, outros desdramatizam e vêem nestes tempos líquidos uma extraordinária oportunidade de estabelecer uma nova ordem mundial, e que os sustos e tiques de extrema-direita e anti-democráticos que hoje tanto nos assolam não serão mais que meros alertas e pequenos toques para a construção de um projecto reformista dos velhos ideais de “Democracia”, “Sociedade Global” e “Ordem Política”. Talvez tudo seja uma excelente ocasião para pôr uma boa parte dos grandes vultos intelectuais do nosso tempo a reflectir sobre a aquela que poderá vir a ser assinalada como a grande viragem do “processo democrático”.

A derrota de Trump (dado que a vitória começa a ser um cenário fora de rota dada a já previsível queda de Donald para tropeçar em erros e “dixits” polémicos, situação que o começa a colocar atrás de Clinton) poderá vir a revelar-se como o antídoto que tanto procurávamos para os “piquenos” agitadores de antigos esqueletos que julgávamos já não haver memória. Marine da Frente Nacional e os recém-chegados à ribalta da política nacional alemã da Alternativa para Alemanha, o partido anti-imigração alemão (AfD), poderão muito bem classificar-se como os grandes derrotados das próximas grandes eleições. França e Alemanha vão a votos em 2017. Na França, as presidências prometem trazer a já certa saída de Hollande do Eliseu, a incerteza estará apenas no substituo, uns depositam toda a esperança em Sarkozy (que há falta de melhor opção, será mesmo a única opção viável), outros vêem em Marine le Pen a melhor opção. Já estes últimos, descompensados em racionalidade e bom senso, não calculam uma série de perigos para o caminho de Marine até ao Eliseu. Trump perderá, o brexit não passará de um gole em seco e os franceses, ainda dotados de algum bom senso, crê-se que darão uma negativa ao discurso do medo, ao não pretender que a sua amada França se descaracterize no que às liberdades individuais diz respeito.

Já para não falar da inexistência de qualquer solução que as políticas imaginadas pela Frente Nacional prevejam para a pôr fim ao problema do terrorismo, uma vez que os atentados que tanto tem atormentado a política europeia e por via da globalização, a política internacional – são perpetrados por cidadãos franceses, naturalizados como tal e com carimbo oficial. O ridículo disto tudo é pensarmos que os problemas anexos à “jihad” que decorrem de uma série de outros problemas nacionais e até urbanos (um olhar sobre as políticas urbanas seguidas por Paris e encontraremos muitas respostas) se resolvem com um irrisório fechar de fronteiras.

Debater fronteiras, regionalismos e nacionalismos será parte do caminho para uma reforma da Europa e obrigatoriamente da UE (para quem o brexit deveria ter funcionado como uma brilhante oportunidade para dar início a uma profunda reforma das suas instituições). Assistimos, parafraseando Sampaio da Nóvoa, a um “tempo novo”. O tempo em que o escalar de conflitos entre velhos riváis é oportunidade para encetarmos uma nova forma de olhar e compreender o outro e a diferença, mais natural e integradora do que nos é estranho numa nova categoria, a da diversidade!

No caso da Alemanha o caso é outro, mas não muito diferente. Em 2017 a Alemanha vai a votos para o lugar de Merkel, que já fez questão de alertar e deixou “muito claro” que será recandidata. O partido Alternativa para a Alemanha avistou-se como um dos grandes vencedores das últimas eleições regionais na Alemanha, em Março de 2016, só no estado da “Saxónia-Anhalt” obteve uns confortáveis 22,08%, um resultado inédito para um partido desta área. Em outros estados federais alcançou resultados à volta dos 10% e ficando representado em 8 dos 16 estados federais. A tendência de subida é assumida por analistas que se esquecem de enquadrar as suas análises à luz dos acontecimentos internacionais e à perda de intensidade das outras forças e movimentos conotados com posições extremas e xenófobas.

Se a tentativa de alguns é penalizar o politicamente correto, rapidamente se aperceberão de que o esquadrão do “politicamente correcto” está a anos-luz de distância em termos de bom senso e capacidade política dos que tentam prevaricar o “correcto”. O brexit é em parte o reflexo de uma certa “incoerência” que domina parte da política europeia. Inbebida em muita xenofobia, ignorância, velhas noções de “fronteira”, “nacionalidade” e “cidadania”, e com destaque para a ignorância sobre o que tanto criticam: a globalização. Esta demonstra-se a pouco e pouco a alternativa de uma minoria. A tentativa de impor ao UK uma posição escura e cinzenta à mesa da família europeia traduziu-se de imediato numa velha ambição de poucos. É conhecido o facto de muitos dos que votaram pela saída do UK do círculo de poder da UE se terão arrependido assim que deram conta do erro em que haviam caído. Brexit? Foi fogo de vista (e não falo do ainda não confirmado facto de que o accionar do artigo 50º do tratado de Lisboa poderá só acontecer em finais de 2019, segundo o que terá sido admitido por alguns ministros do executivo de Theresa May).

As notas que aqui trago não podem passar sem conter uma pequena passagem pela Silly Season em terra lusas e como é óbvio não podemos passar ao lado dos novos episódios desta aventura política à esquerda que hoje faz sombra a tempos de mais prosperidade.

As sanções marcaram parte desta época louca em que o verão tem sempre ponto alto. Quem acompanhou a conferência de imprensa do saudoso comissário europeu o socialista Pierre Moscovici, fê-lo certamente com um sorriso na cara, pois a surpresa de tudo aquilo era demasiado humorístico. Muitos foram os socialistas e não só, a dar graças a Costa e ao seu executivo pela forma como tão dignamente enfrentou a Europa e pôs fim a tamanha injustiça. Para gargalhada dos conscientes e cientes da realidade, esta curta-metragem que teve as sanções como pano de fundo não passou de mais um infeliz episódio em que os socialistas se acusam como vencedores. Esquecendo pois a crise política em Espanha, o trabalho de lobby do PSD junto do PPE e da Comissão e do papel do comissário Moedas junto dos seus pares. Esqueceram-se pois que a crise política (para os mais pudicos, a incerteza política em Espanha) foi provavelmente um dos argumentos que fez a comissão pensar duas vezes na imposição de tais castigos, tão intensos e nocivos para uma tentativa de o PP regressar aos bancos do poder pleno. A possibilidade de castigar o governo de Costa pelo desvio do único caminho possível (e que só Costa e os seus camaradas não entendem) poderia ficar para depois.

Bruxelas com o episódio das sanções afirma de forma clara uma coisa: as metas são para cumprir, bem como os tratados. Estão assinados e são parte do processo de estabilidade europeia. Na opinião do autor desta curtas linhas, faz sentido a manutenção de um processo de sanção? Claro que não. Colocar um mecanismo de sanções para metas como as do défice que nem sempre dependem da política nacional é quase o mesmo que pedir a um atleta para seguir um determinado percurso e a meio do percurso cair um avião no meio da pista que o impossibilitará de chegar à meta nas condições e no tempo previsto. Caminhar para uma revisão do tratado orçamental? É um caminho possível. Mas isto implica que todos estejam dispostos a tal e não seguir a estratégia de Costa, achando que Bruxelas é o inimigo e quanto mais fogo lhe pegar, melhor. A subtileza política de Passos no trato com Bruxelas e os restantes dirigentes políticos europeus é algo que não acompanha o pensamento político dominante em São Bento. Nada de novo…

Surpreendente é ainda a tentativa de que alguns escudeiros da geringonça colocaram em prática para passar a imagem de que Passos se dava feliz pela provável queda de sanções em Lisboa. Repare-se: as sanções eram injustas, não fazia qualquer sentido aplicar sanções a Portugal e Espanha quando a França já várias vezes se desviou da meta estabelecida pelo Tratado Orçamental. As sanções funcionaram como pressão sobre Lisboa tentando colocar as coisas no rumo certo? Claro! A alternativa ao caminho desenhado por António Costa (curiosamente por estes dias assinala-se um ano de vida do cenário macroeconómico de Centeno e Costa, só é pena é que um ano depois o cenário seja de redução do número de exportações e abrandamento do crescimento económico) é viável? É claro que não, mas isso deixamos para daqui a alguns meses. Deixemos passar estes ares mais quentes…

Mas enquanto o verão ainda dura e as notas não se alongam muito, há oportunidade para dar uma leve olhada no caso do “Galpgate”, polémico, quente e demasiado “old school”, assim se pode dar a descrever o caso dos secretários de estado que aceitaram viajar a convite da Galp com tudo pago. Acresce-se, contudo, a informação de que estes secretários de estado tutelavam pastas que continham litígios directos com a Galp, o mais grave, um imposto de cerca de 100 milhões que a Galp insiste em não pagar. Inócuo é o que pensa que o Dr. Rocha Andrade recebeu o presente e ficar-se-ia apenas por um “obrigado” à Galp.

Tolos são os que acham inocentes e ingénuas situações do género e os que agora calados e quietos não desatam a pedir a demissão de Rocha Andrade. Curiosamente, são os mesmos que quando Maria Luís Albuquerque se fez consultora da Arrow Global desataram a correr num frenesim com vista à exigência da demissão de Maria Luís, para se ver o ridículo até a colocaram numa comissão de ética. No caso do Rocha Andrade e dos outros dois, o silêncio começa a ser demasiado evidente e ofuscante dos antigos tempos de Jerónimo e Catarina. O poder tem destas coisas… Ficamos reféns, uns mais do que outros.

No final de contas, são os episódios de uma geringonça mal composta.

*Este artigo apenas vincula a opinião do seu autor.

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