Blog

Até quando vamos chorar?

Paris, Janeiro e Novembro de 2015. Bruxelas, Março de 2016. Nice, Julho de 2016. Estas são datas cravadas à força na memória de qualquer orgulhoso cidadão Europeu. Nestas datas, a Europa foi vítima dos mais bárbaros ataques à sua população, aos seus valores de liberdade individual, à sua noção de democracia mas sobretudo à alegria que é ser Europeu. E sim, digo Europa pois desengane-se quem pensa que estes ataques se destinaram a uma nação em particular, a um povo específico. Aquilo que assistimos foram ataques ao nosso modo de vida, à nossa visão de sociedade, exatamente à alegria e orgulho que temos em ser Europeus. Esta alegria começa, lenta e silenciosamente, a ser substituída pelo medo e pela angustia de não sabermos o que nos reserva o dia seguinte.

Entretanto, a União Europeia sofre também um duro golpe no seu projeto e ambições. No dia 23 de Junho o “povo britânico” decidiu que as próximas gerações daquele reino não terão o direito de viver na Europa unida, na Europa dos valores, na Europa aberta a todos os seus cidadãos. Ainda assim, e apesar da sua inegável importância história e política, o Brexit fica marcado por um aspeto incontornável: a distribuição da votação por faixas etárias. A população jovem, sempre tida como pouco válida ou pouco experiente, deu uma autêntica lição de responsabilidade globalizada, de visão de futuro e de cidadania neste tão complicado Mundo contemporâneo. Infelizmente, este exemplo de grandeza não foi seguido pelas gerações mais velhas. Estas gerações, que como dita a lei da Natureza serão as que menos tempo terão de conviver com as consequências desta decisão, mostraram que apenas são capazes de olhar para o seu próprio bem-estar e, ao contrário do que a maioria pode acreditar, revelaram-se muito menos informadas e esclarecidas que os jovens, o que as torna alvos mais fáceis de campanhas demagógicas e de promessas fáceis.

Turquia, 15 de Julho de 2016. O Mundo é surpreendido com uma tentativa de golpe de estado em Ancara e Istambul, principais cidades deste país partilhado pelo continente asiático e europeu. Para a história ficam as 4 horas que durou esta tentativa de tomada do poder pela parte do exército, mas fica igualmente todo o mistério em que este processo decorreu. A atuação quase amadora das forças que apoiavam o golpe, a falta de um líder claro do movimento golpista e o facto, quase caricato, do Presidente Erdoğan se encontrar já fora do país no momento das movimentações, encobrem esta data de dúvidas e suspeitas para as quais muito provavelmente nunca teremos resposta. Mas o que fica como resultado imediato desta noite é que Recep Tayyip Erdoğan torna-se no novo herói do povo turco. Já o resultado a longo prazo, esse é mais assustador. A Turquia vinha dando pequenos passos no sentido de se tornar um país mais justo, verdadeiramente democrático e com respeito pelas diferenças de todos os seus cidadãos. O processo e aparente vontade de adesão ao projeto europeu eram sinais positivos que a Turquia, ainda que timidamente, nos ia dando. Ora, depois desta tentativa de golpe, a sentença de pena de morte volta a ser falada neste país. É pelo medo que  agora se tenta dissuadir qualquer tentativa de atentado contra o regime em vigor.

Todas estas datas devem induzir na mente de cada um de nós uma simples pergunta: “mas porquê?”. Mas porque é que os valores da liberdade, igualdade e fraternidade, pilares de uma sociedade sustentável e moderna, são vítimas de ataques constantes?  Mas porque é que o projeto europeu, uma das mais belas iniciativas de paz e desenvolvimento jamais concebidas pelo ser-humano, é constantemente ameaçado e criticado? Pois será que os problemas estão do lado dos projetos, das ideologias, dos valores? Ou será que o verdadeiro problema está do lado de quem tem a responsabilidade de representar esses valores, de quem tem o dever e a honra de nos governar?

A verdade é que temos sido “vítimas” de um conjunto de maus governantes, de maus dirigentes, de maus políticos. Aqueles que têm a honra de ser eleitos pelo povo deveriam ter sempre presente a vontade de se tornarem bons exemplos para as gerações vindouras, de se tornarem exemplos de integridade para todos aqueles que governam. Pois bem, os bons exemplos entre a nossa classe política não abundam. A maior parte dos nossos líderes acabam por revelar personalidades fracas, pouco capazes de se manterem firmes perante as maiores adversidades.

Um exemplo claro é o do atual Presidente francês François Hollande. Aquando da sua vitória sobre Nicolas Sarkozy, Hollande prometia ser um líder firme e uma nova esperança para toda a Europa. Pois bem, a governação de Hollande tem sido pautada por tudo menos por conquistas e vitórias. Apesar das enormes atrocidades de que têm sido alvo o povo francês, este bem pode ser considerado um dos mais fracos presidentes da história francesa. De episódio surreal em episódio surreal (quem não se lembra da história da scooter e da amante), este senhor tem se vindo a tornar uma das maiores desilusões da política moderna. O mais recente acontece nas comemorações do dia 14 de Julho, um dos dias mais importantes na criação da sociedade moderna e feriado nacional em França. Tinha então estalado a bronca sobre o salário auferido pelo cabeleireiro pessoal do Presidente. O valor, que ronda a dezena de milhar de euros mensais, chocava um povo agastado e que tem sido obrigado a suportar desafios imensos. Ora François Hollande, que como todos sabemos é dono de uma farta cabeleira e que por isso tem toda a razão do Mundo em gozar de um cabeleiro a tempo inteiro, dizia que ninguém o podia criticar naquela matéria já que, apesar de despender muito dinheiro em prol do seu couro cabeludo, o orçamento global do Eliseu tinha sido reduzido nos últimos anos, o que lhe dá o direito de pagar o que quiser a este seu empregado. A verdade é que mais tarde nesse dia, nesse mesmo dia que devia ser de festa para uma população que tanto merece, Nice era palco de um horrível atentado terrorista. A França voltava a cair numa tristeza e luto profundo, e o seu Presidente voltava a cair no ridículo. Este é sem dúvida um líder que nunca se tornará num verdadeiro exemplo.

E assim se vai dando popularidade à senhora Marine Le Pen. Um povo triste, assustado e sem vislumbrar um líder claro e forte rapidamente cede à pressão do medo e à necessidade de se sentir novamente seguro… Tal como acontece agora na Turquia, onde o povo receoso começa a aceder à campanha de medo e controlo absurdo implementada pelo Presidente Erdoğan.

É esta falta de líderes bons e carismáticos que tornam possíveis movimentos extremistas que tentam controlar o povo pelo medo e por promessas fáceis. É esta falta de líderes fortes que levou a que “personagens” como Nigel Farage tivessem sucesso e fossem capazes de levar o povo britânico a votar o abandono da União Europeia. Pois bem, está na hora de surgir uma nova geração de líderes! Líderes jovens e informados, dirigentes provenientes da geração mais qualificada e informada. Está na hora que esta geração “saia da frente” e dê lugar aos jovens! Pois se gostam de dizer que “os jovens são o futuro” então que nos deixem ser nós a construir esse futuro, que respeitem as nossas posições e não nos obriguem a ser escravos das decisões egoístas das anteriores gerações! Pois que sejamos capazes de nos unir, independentemente da ideologia política, na promoção dos jovens e na reclamação da nossa posição na sociedade. Para que finalmente possamos ser ouvidos, para que finalmente possamos dar bons líderes à nossa Europa, para que finalmente a sociedade se possa orgulhar dos seus representantes. Só remando todos para o mesmo lado seremos capazes de fazer a diferença e de ser agentes de mudança! Está na hora de dar uma nova cara ao projeto Europeu e devolver a esperança ao povo da União Europeia.

*Este artigo apenas vincula a opinião do seu autor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *