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Pokelitics

“(…) Explode a carne em mãos de quem nada fez / Embora doa, não me sujo desse sangue / Embora doa, há sempre outro canal (…)” (Klepht)

Enquanto meio mundo anda a caçar Pokémons, anda outra metade a tentar parar a onda de terrorismo na Europa.

Olho para o lado e vejo gente inocente a ser morta. Olho para a frente e vejo um Pokémon no meio da estrada. Entro no jardim do vizinho e caço-o. Volto para casa, ligo a televisão (não sem antes me certificar de que não há um “bicho” na sala) e, durante dois minutos aceito ser bombardeado com noticiários que anunciam homens-bomba, evacuações de emergência e gente ensanguentada.

Até há bem pouco tempo, o medo andava bem longe de nós. Do outro lado do Mediterrâneo. Do outro lado da tela.

Nós, europeus, estávamos protegidos pela atitude de uma Europa que se pretende unida, solidária, forte.

Um dia, migrantes, empurrados pela guerra, entraram na nossa casa. Não conseguimos ignorar as diferenças. Mesmo assim, abrimos os braços.

As bombas começaram a rebentar, as pessoas a morrer, e a nossa bandeira arroxeou banhada de sangue. Já nessa altura tínhamos registo de ataques terroristas na Europa; mesmo assim, preferimos culpar quem nos pediu ajuda.

Chegou a hora da verdade: A ti, que, chegas a nossa casa, sê bem-vindo. E conta connosco. E a ti, que arrobaste a nossa porta, queimando as nossas paredes com a cor do medo, fica ciente de que também não vamos ficar parados. Por nós, pela nossa casa, por quem de nós precisa, pelo Mundo.

E buscamos desesperadamente por uma solução que faça esta onda de sangue parar. Não há pokebolas que nos valham. A paz não tem preço! Já se deram conta da quantidade de aplicações de apoio Pokémon que surgiram em tão pouco tempo? Só não parece haver solução para o medo. Nem para a indiferença. Será que só vamos levantar a cara quando o sangue escorrer do lado de fora da tela?

Precisamos, isso sim, de uma aplicação para nos ligar à realidade. Uma aplicação que nos ligue a quem precisa de nós. E essa aplicação, afinal até existe e é tão antiga, mas tão valiosa que, por vezes a esquecemos: a Humanidade.

*Este artigo apenas vincula a opinião do seu autor.

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