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João Soares, ou a vã glória de mandar

Era uma vez um ministro. Que na realidade nunca terá sido. Um projecto dele, quando muito. Tal como o proto-ministério pelo qual dava a cara. E a mão, pelos vistos. Vejamos.

1. Comecemos pelo inevitável. Nomeação resultante do refugo, não se conhece a Soares Jr. qualquer trabalho de especial relevo na área cultural. O que não põe em causa o seu know-how vociferado pelos pregões de alguma esquerda, mal se soube da escolha (convém lembrar o filho de César). Contudo, não se está em crer que um trabalho assaz desconhecido no campo da edição literária, colado a trabalhos de vereação na capital, justifiquem a pasta. Mas bem, há por aí uns romances, diz-se, à boca pequena. O espanto foi geral.

E eis que a actividade ministerial por Soares Jr. então desenvolvida neste escasso período desemboca em casos, polémicas e ameaças (you don’t say). Caso Lamas para começar, um jornalista director para achincalhar, bofetadas para sobremesa. Ao chorrilho de nomeações compulsivas junta-se uma intensa actividade internauta, ao melhor estilo de um qualquer blogger de pacotilha e perfeitamente desadequada de uma função de um membro de Governo. Pois.

Jantares, almoços, visitas. Quatro meses de puro pavoneamento sem uma única linha de pensamento conhecida sobre a pasta. Não bastasse ainda houve no menu queixas, acusações e sal. Muito sal. Enfim, um autêntico must-see de um já conhecido socialismo vanguardista avant la lêttre.

2. Não se entende o que este PS quer da Cultura. O que a esquerda, tão prontamente guardiã e diligente, pensa da Cultura. Nem antes de ser governo nem tão pouco agora. Poucas palavras se ouviram sobre o assunto. Porém, pegar numa secretaria de estado e maquilhá-la de Ministério não me parece de todo honesto.

Trazer para a frente um indivíduo sem amplitude e potencialmente verrinoso é completamente suicidário. Se de facto queremos pensar a Cultura não podemos apenas exprimir esse mesmo pensamento num conjunto de intenções, plasmá-las numa qualquer rubrica de programa de Governo e depois dedicarmos o tempo à encenação. E parece que foi isso que o Partido Socialista fez e tem feito. A consignação de 0,2% do orçamento de estado provam isto mesmo. Não são suficientes jantares e aparições frenéticas em eventos que justifiquem uma linha de acção. Porque não há nem linha de pensamento nem acção.

A discussão deve ser séria de tão verdadeiramente premente. A Cultura raramente foi alvo de reflexão pública e alargada aos demais sectores. Apenas arremessada sobranceiramente como bandeira por uns, metida na gaveta por outros. Discutam-se os objectivos, a oferta, a programação, redes nacionais inclusas, o modelo e a inserção na educação básica e secundária. Discutam-se as orquestras, os teatros, os museus, a literatura e o cinema. Discuta-se o estímulo. Discuta-se.

3. Sucintamente, estes meses de João Soares só poderão ser entendidos se fizermos acompanhar, apropriadamente, toda esta trama com uma ópera, por exemplo, ao estilo de Wozzeck, de Berg. A loucura suicidária está lá toda. Os berros, insultos e o sangue também.

À ânsia cultural do PS, só satisfeita com a edificação de um ministério, correspondeu um mamarracho à grande e à francesa, para inglês ver. Este ministério tinha tudo para ser um nado-morto.

Enfim, um autêntico período circense que esta versão beta do ministério conheceu, decalcada do que parece ser uma visão jacobina e algo desonesta que o Partido Socialista tem do que é e deve ser a Cultura em Portugal.

Venha o próximo.

Luís Nabais 

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