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Por um canudo

O ensino superior em Portugal está doente. Encontra-se num estado altamente debilitado, perto de um coma irreversível. E quanto mais tempo negarmos esta sua condição, mais contribuiremos para o seu declínio final.

Comecemos por fazer uma análise retrospetiva de como surgiu o ensino universitário no nosso país: apesar de possuirmos, e com bastante orgulho, uma das mais antigas universidades do Mundo (a fundação da Universidade de Coimbra data de 1290), ou algumas instituições centenárias como é o caso da Universidade do Porto, a verdadeira abertura do ensino superior para o povo português só acontece após o 25 de Abril de 1974. É a partir deste momento que a rede de instituições se alarga e que a frequência nas Universidades passa a ser um direito real de todos e não apenas um privilégio raríssimo de alguns. No entanto, e como quase tudo o que foi feito em Portugal após o 25 de Abril, o ensino superior português “globalizado” foi montado à pressa e de forma completamente desastrosa.

Há uma verdade incómoda de que nos devemos consciencializar o mais brevemente possível e sobre a qual devemos refletir profundamente: o nosso ensino superior tem pouca qualidade. E antes de continuar esta discussão é importante ressalvar que, como em todos os momentos da vida, todas as considerações aqui descritas resultam de uma generalização sobre o modus operandi da grande maioria dos intervenientes do ensino superior português. E tal generalização pode ser feita porque, ainda que existam pessoas muitíssimo válidas nas nossas instituições de ensino superior, estes não constituem, infelizmente, a maioria. Inclusive, sempre que alguém deste círculo tenta contribuir para um melhor ensino, para uma investigação de maior rigor a que os alunos portugueses têm realmente direito, estas pessoas são desprezadas, minoradas e muitos vezes perseguidas pelos seus pares simplesmente porque outros interesses se levantam. Outros que não os interesses que tornariam a nossa formação superior melhor e capaz de competir com aquilo que se faz por esse Mundo fora.

A velocidade com que inúmeras universidades e politécnicos foram instaladas por Portugal conduziu a um fenómeno de contratação massiva para os quadros institucionais sem um cuidadoso critério de seleção. Não assim há tantos anos, era extremamente simples alguém tornar-se professor numa universidade ou politécnico. Ora, tal cargo implica pois, talvez surpreendentemente, a responsabilidade de lecionar, de formar as gerações futuras do nosso país. No fundo, implica estar à altura de um dos mais nobres e difíceis atos da condição humana: ensinar, transmitir conhecimento aos mais novos, entusiasmá-los com os problemas mais desafiantes do nosso Universo. Além disso, a condição de Docente inclui ainda a responsabilidade de saber conduzir investigação, de saber produzir ciência. Muito simplesmente, a profissão de professor no ensino superior combina ainda outra ação extremamente difícil para o Homem: fazer avançar o conhecimento. Ora, como os quadros das nossas universidades e politécnicos foram preenchidos à pressa e com um critério de exigência muito baixo sofremos ainda hoje as consequências deste ato: os Docentes portugueses não têm muitas vezes competências para ensinar, apenas com muito boa vontade se poderá chamar Ciência ao que alguns produzem nos seus trabalhos de “investigação” e, ainda mais grave, muitas vezes não têm competências nem como professores nem como cientistas! No entanto, a ressalva feita acima é ainda válida, alguns destes Docentes tornaram-se grandes Professores, grandes Cientistas e ainda hoje lutam por um ensino superior melhor. A estes, o rigor não provoca medo e, mesmo com critérios mais exigentes, mereceriam sempre o seu lugar nas universidades e politécnicos portugueses.

O nosso ensino superior está verdadeiramente entregue à mediocridade e, tão nova ainda é a nossa realidade universitária, que terão de passar muitos anos até que uma nova geração, verdadeiramente competente e habilitada, tenha a sua oportunidade para criar um ensino superior com qualidade e capaz de elevar Portugal. Uma geração que já percebeu qual é o interveniente de maior importância e que mais deve ser valorizado dentro do ensino superior: o aluno é o produto último de qualquer universidade, é nos alunos que se devem concentrar os maiores esforços de modo a que estes possam adquirir as ferramentas necessárias para poderem sonhar com as carreiras que merecem e para que as possam desempenhar com todo o mérito e sabedoria. No entanto, enquanto os nossos Docentes estiverem mais preocupados com a produção “ao quilómetro” de artigos científicos de qualidade duvidosa, em fazer autopromoção dos seus falsos méritos e se continuem a esquecer que os alunos que formam são sempre os melhores embaixadores dos seus trabalhos e competências, estaremos sempre longe de poder oferecer um ensino superior digno e à medida dos desafios que o Mundo apresenta para as próximas gerações.

Mais grave que o estado do ensino superior português é a existência de um sistema que pactua com esta realidade, que inclusive premeia esta forma de estar na vida académica e científica, um sistema que muito simplesmente continua a valorizar aquilo que é medíocre. A meritocracia ainda não se instalou dentro das nossas universidades e politécnicos e muito provavelmente não será em breve que esta realidade mudará. Há todo um sistema baseado em lobbys e interesses que é preciso ir alimentando. E, tal como no tempo de um Portugal não tão antigo quanto isso, quem pensar demais, quem exigir mais rigor, quem quiser fazer diferente, é imediatamente tomado como uma voz que é preciso abafar.

Está nas mãos dos jovens portugueses exigirem mais do nosso ensino superior, de reclamarem o seu lugar na vida académica e científica do nosso país. Está na hora da verdadeira reforma do ensino superior e da ciência em Portugal!

Mário Pereira

Aluno de doutoramento na Université Paris-Sud (França) e bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

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