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A Europa dos valores, sem valores

Vinte e dois de Março de 2016. Esta é mais uma marca para o negro calendário de atentados terroristas. A Madrid, Paris, Kuwait, Beirute e Bamako junta-se agora Bruxelas. Trata-se de uma longa lista de vítimas do terrorismo. Se, anteriormente, haviam atacado a sede de fundação de uma boa parte da visão humanista e liberal que cristaliza substancialmente o pensamento europeu, ontem, foi a Europa, como construção política e social, que sofreu um duro ataque, descrito por muitos como cobarde e monstruoso.

Os jornais abrem capas e noticiários com o natural clamor do conflito, do pânico e do horror. No entanto, esta não pode ser a atitude seguinte. Urge a necessidade de uma reacção – fria, coordenada e, sobretudo, adequada. A Europa terá necessariamente de reagir com cautela e perspicácia, é certo, mas este não é um problema exclusivo da Europa como actor político. A nós, sociedade civil, também nos cabe reagir, negar e repudiar o extremismo; compreender que o multiculturalismo está longe de ser a causa do problema. Só com uma sociedade livre e moderada, sem linguagem e ameaças bélicas, onde a diferença seja integrada, sem muros e sem barreiras, é que podemos fazer frente a fundamentalismos como este.

No fundo, não podemos perder aquilo que tão bem nos caracteriza. Não nos podemos esquecer que o problema não está na diferença do outro, mas sim na compreensão dessa mesma diferença e na sua efectiva capacidade de integração. O extremismo e o radicalismo não se combatem com mais violência, mas sim com racionalidade, estratégia, inteligência e, substancialmente, com coordenação dos agentes políticos, sociais e securitários.

É certo que o terrorismo não é um fenómeno inteiramente novo. O estilo mudou, os atores tornaram-se outros e o método é muito mais sofisticado e moderno, recorrendo a um inteligente recrutamento e mostrando-se presente nas mais diversas paragens. Todavia, a essência extremista persiste e dissemina-se para além das fronteiras do território que hoje é controlado pelo Daesh. A causa desta aparente expansão ideológica está para lá da facilidade de comunicação que tão bem caracterizará o século XXI. A causa poderá apenas ser encontrada no evidente vazio politico e cultural que hoje domina a Europa.

Na verdade, o problema encontra-se também em nós, cidadãos europeus, que deixámos que a Europa perdesse uma substancial parte do seu espirito fundador. A esperança, a união e a paz diluíram-se nos meandros das burocráticas instituições europeias. Estes valores são o ADN da cultura europeia. A visão humanista do mundo foi a nossa linha condutora durante anos, que nos orientou no momento de erguer uma Europa destruída pela guerra e durante um largo historial de conflitos. Em parte, o problema de alguma desorientação dos agentes políticos europeus deve-se a uma perda do propósito que fundou a União Europeia como uma união económica, social e política.

Facilitou-se o trabalho a quem pretendia propagandear o ódio e o extremismo religioso no seio da União. Deixámos que os bairros sociais em Paris e outras cidades europeias se tornassem viveiros para ideias terroristas, para bombistas suicidas e outros tantos criminosos. Se uns tentam tirar proveito político, destacando a austeridade como a causa do terrorismo, incorrendo de imediato numa análise ideologicamente enviesada e, até, distorcida da realidade, não podemos nós entrar em populismos falaciosos e em ódios bacocos. Espera-se uma resposta à altura, quer dos agentes políticos comunitários, quer dos próprios cidadãos europeus.

Hugo Ferrinho Lopes

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